Camila Vieira Crítica semanal

Sobre vícios coletivos e problemas individuais

Pensei em fazer, para o artigo desta semana, uma reflexão acerca do consumo de drogas no meio criativo e de como isso é amplificado pela mídia de massa, a fim de tornar individual um problema coletivo. Os maiores motivadores dessa empreitada textual foram alguns documentários que assisti, numa famosa plataforma de streaming, cujo tema é vida e obra de artistas consagrados da indústria fonográfica, como Janis Joplin, Jim Morrison, Michael Jackson, Nina Simone, e de artistas que ainda estão desenvolvendo suas carreiras, como Lady Gaga e Demi Lovato. Alguns destes documentários são excelentes, outros, nem tanto. Falarei sobre os últimos. Foi impossível, ao escrever este texto, não recorrer, porém,  à frase que, certa vez, proferiu um professor na faculdade. Ele dizia ser preciso assistir a um documentário com o olhar tão crítico quanto aquele que é necessário aos noticiários da televisão, pois, às vezes, a única diferença entre um filme de ficção e um documentário é que o documentário tenta parecer tratar sobre a realidade. E, indo mais além, assevero que não devem ser poucos os documentários, feitos há apenas alguns anos, que apresentem fatos completamente desqualificados na atualidade. Está longe de ser incomum produções de toda a sorte que se pautem em quem é a mais recente estrela de Hollywood a ir para a reabilitação ou a perder a guarda dos filhos, como igualmente está longe de ser incomum o quanto a sociedade capitalista explora estes escândalos pessoais para vender manchetes e movimentar o mercado da fofoca.

A leitura mais comum que se pode tirar ao assistir a estes documentários é que o preço da fama é alto demais e que estes artistas cometem muito mais erros do que um cidadão comum. Contudo, a atenção dispensada ao último gole da Whitney Houston não faz parte, pelo menos aparentemente, das estatísticas mundiais sobre o alcoolismo. Até mesmo aquela sanha pelo clube dos artistas que morreram aos 27 anos de idade, também não se atém ao dado de quantos jovens morreram de overdose àquela época e quantos  atualmente ainda morrem pela mesma causa. Existe, inclusive, um documentário que atribui as mortes de Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse a uma infelicidade traumática adquirida na infância, que culminaria no vício em drogas e na depressão. Aparentemente, os diretores deste tipo de documentário propositalmente se esquecem de quanta disciplina é necessária à realização de um trabalho tão primoroso quanto o que estes artistas fizeram, e que o talento, por si só, não basta para se chegar ao sucesso. Sem contar de que estamos falando de pessoas adultas, com carreiras invejáveis, num mundo onde existe um exército de desempregados e de trabalhadores que passam a vida inteira sendo explorados e ganhando uma ínfima remuneração.

Concordo com a conclusão proferida por uma amiga, há muitos anos atrás, de que os filmes dos anos 1950 foram muito mais eficazes em vender cigarros do que as milionárias propagandas da Marlboro. Não é possível descontextualizar o consumo de drogas do momento social e cultural no qual o sujeito se insere, e isso equivale para os famosos. Van Gogh pintou por apenas dez anos, dos 28 aos 38 anos de idade, e produziu tantas obras que sua média chega a um trabalho pronto a cada 36 horas, porém ainda hoje se discorre mais a respeito de seus rompantes de loucura, que equivalem aos  seus dois últimos anos de vida, do que sobre a intensa produção que o artista realizou antes, como assistente de um galerista, e durante seu exercício de pintor. Ler as cartas que Van Gogh endereçou ao irmão e a tantos outros companheiros, ajuda-nos a ter uma visão muito mais humanizada sobre este homem que de fato estava sensibilizado à estética, mas que estava longe de ser o poço de instabilidade emocional com o qual frequentemente o pintam, apenas para vender a figura do gênio incompreendido, que cai como luva à narrativa moral que se faz sobre os  artistas que vemos no cinema ou que ouvimos nas playlists dos apps de música. Como sempre, é tudo muito mais profundo do que aparenta ser.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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