Carolina Lopes Crítica semanal

euoutroeu

eu.                      outro eu.
como se estivesse à frente de um espelho, sou lembrada de que diante de um eu, o outro também o é. outro eu.

a artista carioca, adrianna eu, desde seu nome e através de sua obra, já avisa. com voz de mãe e um afago na cabeça, conversa sobre as relações. conta sobre o outro, conta sobre você mesmo. é vermelho seu trabalho. de tão vermelho, produz uma ocupação de outra natureza, para além dos objetos que instala nos espaços. onde está, transborda. são linhas vermelhas. uma intensidade absurda, pulsante. são agulhas. brilho frio e ponta. são anzóis. trata-se ali de uma potencialidade ambígua: ao passo que podem ferir, abstém-se de tal ação. de fato, essa virada acaba por tornar ainda mais amável a cena e os elementos – o brilho pontudo, o vermelho denso e os ganchos, são então a mais pura delicadeza. são o eu desejando a partilha. em a procura, mil corações, pesca seca, sala de espera, a artista elabora cenários em que, com extremo carinho, explicita as dinâmicas do encontro. é como se, apresentando uma certa situação entre pessoas, descortinasse as aparências. com cuidado cirúrgico, extrai as peles, exibindo os fluxos emocionais pulsantes ali.

é curioso perceber em seus trabalhos as vozes com que fala. hora fala uma velha. a voz carregada das experiências de uma vida inteira. já não mais se briga com aquilo que é imutável, aquilo que é humano. complexo e incompreensível. aceita: só é. hora fala uma jovem. a voz prenhe de esperança. quase inocente. cheia de querer, cheia do desejo de compartilhar sem orçar os custos. tenho a impressão de haver ali uma sabedoria milenar, talvez materna. matriarcal e ancestral. e que se propõe a ensinar, ou melhor, transmitir sua empiria vivida. divide, aos que querem, o seguinte saber: no amor há também dor, e aí está, de igual modo, sua beleza e sua potência. diz, falando do ser para si. falando do ser para o outro. em a costura de si, adrianna performa, passando suas linhas vermelhas, com agulha, pela pele das pontas dos dedos. tanto é o experimento infantil, de testar seus limites, furar onde não dói, não marca. quanto é o ser adulto, se revendo, se rediscutindo, se reamando. lembro da poesia de mário sá carneiro, “eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio: pilar da ponte de tédio. que vai de mim para o outro” e que, anunciando exatamente essa relação entre eus, Alexandre O’Neill completa “comigo me desavim… não posso viver comigo… não posso viver sem mim”.

na série narcisos, um mergulho no eu. como num verdadeiro mergulho, jorra. adrianna congela o jorro: espirros cristalizados, que saem do espelho. parece um conto. parece uma fantasia. tudo cintila. dá medo e vontade ao mesmo tempo. é como uma conjugação de ambiguidades, de multiplicidades, de complexidades. é uma metalinguagem do eu. são dois. são espelhos. euoutroeu.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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