Crítica semanal Daniele Machado

Ruína em construção: por uma perspectiva ameríndia na reconstrução do museu

É mais fácil incendiar que dominar pela força da bala. Incêndios são eficientes no objetivo traumático. Desestabiliza, institui o vazio e o silêncio e encerra a memória.  O incêndio do último domingo no Museu Nacional e o de 1978 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro tem mais semelhanças entre si, que apenas a falta de compromisso do poder público. Em ambos, o prédio anexo ficou intacto, sendo o espaço de exposições que foi atingido: o museu que o público vive.

No caso do MAM-RJ, o esqueleto de concreto em estado de ruína do Bloco de Exposições após o fogo não era desconhecido de seus frequentadores. A construção iniciada em 1954 foi concluída somente em 1967. Tanto tempo foi levado, obviamente, não por falta de técnica para sua conclusão, mas por falta de orçamento. Até a sua inauguração, todas as atividades funcionavam ao lado, no Bloco Escola. A pergunta sobre estar abandonado ou em construção era impossível de se responder. Não era possível saber se haveria verba para concluir. O estado de Ruína em Construção pode ser uma definição mais adequada. Como se pode ver na imagem abaixo publicada no jornal A Tribuna da Imprensa no dia seguinte ao incêndio, 9 de julho de 1978, muito próxima das imagens anteriores a abertura desse Bloco.

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Este incêndio acontece 14 anos após o início da ditadura civil-militar de 1964. Esta, diferente de como ocorreu nos outros países latino-americanos, foi forjada democrática para a população. Podia votar, havia partido político – dois, mas havia – e o Estado não assumia claramente os seus crimes. Aliás, apenas criminosos e comunistas eram perseguidos. Cidadão de bem não era nem um, nem outro. Portanto, não havia com que se preocupar.

Demorou também para que intelectuais, profissionais e estudantes da educação, da cultura e das artes entendessem a gravidade da situação e se organizassem. Assassinatos, torturas e sequestros já aconteciam, assim como os primeiros atos institucionais, demissões e aposentadorias compulsórias, mas a derrota dos militares nas eleições para governador em Minas Gerais e na Guanabara em 1965, dava alguma esperança. Assim como, a coragem da oposição organizada no MDB. Foi em 1968, com o primeiro assassinato assumido pelo Estado – o estudante Edson Luiz – e com o Ato Institucional Nº 5 que suspendeu os direitos políticos e habeas corpus de opositores e estabeleceu a censura a imprensa, educação e cultura, que se entendeu a gravidade do que se vivia. Demoraram três anos.

No meio disso tudo o MAM-RJ seguia como um ponto de resistência e enfrentamento da cultura, apesar de diversos episódios de censura, atentados e prisões de sua equipe. O incêndio de 1978 encerrou um ciclo único que ia além da resistência, era uma produção de ponta na experimentação das artes de forma geral. Não tenho como provar que foi um incêndio criminoso, apesar de ter levantado muitas evidências. Mas, de um lado, foi muito conveniente para os militares. E, de outro, foi como “bater em cachorro morto”. Faltaria ainda sete anos pro fim da ditadura e onze para eleições diretas. Os que terminaram vivos, conviviam com as sequelas da tortura, do desaparecimento de pessoas queridas e, principalmente, com a indignação por não haver uma punição exemplar para os militares e civis que cometeram tais e tantos graves crimes, assim como a não liberação dos arquivos desse período, que não aconteceu até hoje.

Criminoso de forma ativa ou passiva, o incêndio do MAM-RJ foi uma metáfora direta daquele período sombrio. Aconteceu em um momento em que todos já estavam cansados demais, onde as universidades estavam desestruturadas. Assinalou o ápice e o fim de expectativas e sonhos de um “Brasil moderno no futuro”, que se viveu nas duas décadas anteriores. O retorno ao estado de Ruína em Construção aponta para o que se pode ter na precariedade de um país imenso no território, na economia e nos recursos naturais. A modernidade a ser alcançada no futuro seria impossível, porque o Brasil já estava inserida nela, como periferia do mundo. O posto de moderno não pode ser ocupado por quem é explorado, por que é colônia ou ex-colônia. O capitalismo não é um sistema justo onde quem se esforça, alcança. Ele forja tudo muito bem. Demorou anos para que o “boato” de que a ditadura de 1964 foi financiada e organizada pelos EUA fosse aceito, somente depois de muita documentação.

Insistir no descaso público com a ciência, a educação e a cultura, não ajuda muito. O descaso é mais que um projeto da elite do país, é um projeto imperialista dos EUA. Não interessa o Brasil um país forte. Sempre que necessário o estado de Ruína em Construção retornará. Ela já pode ser visto em qualquer museu antigo ou novo. No primeiro, a denúncia está na ausência de manutenção. No segundo,  está pouco após a Construção mal executada. Sem uma política externa independente estamos condenados ao estado de se tornar Ruína, antes mesmo que se concluísse a Construção.

Dentro de uma política de conciliação de classes, os anos de governo do Partido dos Trabalhadores fizeram o mínimo que nos implantou esperanças, parecia que ela dali pra frente. Regredir não estava mais no horizonte. Os mais otimistas insistem em que o MN não se resumia ao palácio de exposições e eles tem razão. Mas é onde o público acessava que acabou. A Ruína em Construção já era flagrante para quem visitava as instalações do palácio, mas agora é impossível não vê-la. Ela, estado posterior ao fogo, também é eficiente no trauma. Depois de arrumar tudo para tirar o aspecto da ruína, passado o frenesi da reinauguração, esquecer será fácil. É importante assumir que o Museu Nacional acabou. O que se erguerá será outro museu.

Agora, o futuro tão prometido que já não encanta ninguém, tem a si agregado o fim do passado. Tentar reconstituí-lo de alguma forma se tornou o objetivo do futuro próximo. Mas, como reconstituí-lo? Não há uma fórmula dada. Em um momento marcado pelos fins, que o terreno limpo para se fazer do zero nos ajude a pensar outros modos de fazer memória. Com parâmetros e modelos nossos, coerentes com a nossa realidade de periferia do mundo. Será importante escolher não esquecer e não fingir que o Museu Nacional estará de volta quando estiver recuperado. Lembrar que sem manutenção tudo retornará, ainda que demore.

Entendo que os incêndios e o retorno evidente da Ruína em Construção sejam potentes para nos reorganizarmos, sairmos da inércia e do lugar confortável da ingenuidade. Por mais que estejamos cansados, que o que encontramos hoje ao subir a ladeira que leva ao Museu, em meio ao estágio de suspensão da rotina docilizante que o luto provoca, seja aproveitado, já que “paramos tudo”, para refletir e se organizar. A ruína, em geral, acontece em espaços que não tem mais vida, perderam sua importância, inclusive no lugar do passado. A Ruína em Construção não é uma ruína comum. Ela tem uma sobrevida. Diferente da anterior, mas existe. Encerro este texto fazendo dois apelos.

O primeiro é dia 7 de setembro fazer uma manifestação que de fato homenageie o Museu, ao invés de ficar emitindo jargões políticos que já estamos acompanhando no horário eleitoral. O segundo, é mais caro. Lembrar e esquecer, assim como preservar e destruir não são verbos opostos, mas complementares. Compreender isso será um estágio de maturidade para o nosso processo de fazer memória. O MN tinha um destaque no mundo não apenas por seu acervo, mas também por sua pesquisa. A perspectiva ameríndia para se pensar antropologia é um parâmetro nosso. Veja, para muitos povos indígenas, fazer memória não passa pelos manuais dos nossos antigos e atuais colonizadores/exploradores, nem por suas universidades imparciais e inofensivas. Se decide quando lembrar e quando esquecer. Como lembrar e como esquecer. Se decide como  e quando preservar, construir e destruir. Se decide o que é e quantas são as verdades. Uma perspectiva ameríndia para refazer a memória do museu pode ser a única forma de pedir desculpa por esse desastre. Mas, será que teremos coragem? Coragem de repensar essa memória em disputa juntos? Não apenas lamentar o que se perdeu de povos extintos, mas convidar os que existem para pensar junto? Temos muito por aprender.

Deixo aqui essas tristes lembranças, de quanto o fatídico domingo era só um possibilidade surreal…

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O Globo, Rio de Janeiro, 11 de julho de 1978

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 de julho de 1978

 

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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