Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Revisão curatorial: o que esperar da 33ª Bienal de São Paulo

Amanhã, dia 7 de setembro, é a abertura oficial da 33ª Bienal de São Paulo. Em alguma medida, todo projeto de bienal pressupõe a temporalidade da arte. Seja por um desejo de ruptura; seja pelo reforço, reescrita ou apagamento de núcleos, narrativas e práticas históricas; seja por meio de propostas que visam discutir o próprio contexto no qual a exposição se apresenta.

Nesse sentido, o questionamento sobre o modo como se faz uma bienal é uma premissa em si. E a 33ª edição começa anunciando uma configuração pioneira. Convidado pela Fundação Bienal, o curador espanhol Gabriel Pérez-Barreiro propôs uma alternativa ao chamado “modo padrão de curadoria centralizada e temática”.

Na intenção de descentralizar, ele convidou sete artistas de diferentes origens, gerações e práticas para também atuarem como curador_s. Então, além do próprio Pérez-Barreiro, cada artista-curador(a) apresenta uma proposta coletiva independente (confira a lista ao final do texto).

33 bienal_curadores

Os releases enviados à imprensa colocam em destaque que essa é a primeira vez que a Bienal de São Paulo apresenta esse “sistema operacional alternativo”. Mas, se por um lado, a questão da descentralização do papel do curador converge com as atuais discussões dos movimentos contemporâneos da arte, por outro vale a lembrança de que não se trata de algo novo. Essa abordagem é claramente “inspirada” em um modelo do final do século XIX, quando artistas das vanguardas passaram a atuar como curadores de suas exposições. Duchamp é um dos exemplos mais emblemáticos dessa prática.

De modo geral, espera-se que, ao tentar extrapolar o modelo “curador>tema>artista” por meio desses núcleos expositivos independentes, a produção artística seja oxigenada, já que pressupõe arranjos e bagagens múltiplas. Mas permanece a dúvida se a estratégia não pode prejudicar a coerência do todo e tornar a experiência confusa e cansativa. Sendo assim, é grande a expectativa em relação a expografia geral do pavilhão da bienal. Como o desenho espacial estabelecerá as passagens e os fluxos entre os distintos momentos da exposição? Como evitar (ou assumir) uma ocupação exaustiva do espaço considerando a enorme dimensão arquitetônica do prédio?

Existem também os questionamentos de ordem mais sistêmica: se é verdade que o modelo tradicional de bienais anda desgastado, não é totalmente injusto considerar que essa poderia ser uma estratégia de “gestão de crise” – ampliar os diálogos apenas de maneira aparente e formal e não produzir, de fato, uma proposta conceitual e prática de revisão dos lugares de fala com a finalidade de horizontalizar e expandir as tomadas de decisões curatoriais. É um exercício instigante de revisão da história das exposições: afinal, por que estamos tão cansados das bienais? Veremos, se desta vez, nosso fôlego se renova.

Antonio Ballester Moreno montando a exposicao sentido_comum na 33 Bienal_ Foto Pedro Ivo Trasferetti_ Fundacao Bienal de São Paulo
Antonio Ballester Moreno montando a exposição sentido/comum na 33ª Bienal Foto: Pedro Ivo Trasferetti / Fundação Bienal de São Paulo

Já em relação a tentativa de não reduzir a mostra a um recorte temático, Pérez-Barreto propôs o título “Afinidades afetivas”, que mescla referências do romance “Afinidades eletivas” de Goethe (1809) e da tese “Da natureza afetiva da forma na obra de arte” de Mário Pedrosa (1949).

No romance de Goethe, o casal de protagonistas introduz novas pessoas ao seu círculo de convivência diária – o que afeta diretamente a dinâmica interna de sua relação. Da tese de Pedrosa, provavelmente, vem o regaste do compromisso com a diversidade de linguagens artísticas e o entendimento de que a arte é uma expressão da liberdade e da experimentação e que, em última instância, está interessada na modificação da sensibilidade. Vale lembrar Pérez-Barreiro finalizava uma exposição sobre Pedrosa no Museu Reina Sofia em Madri, quando foi convidado para assumir a Bienal de São Paulo.

A curadoria entende que este título não é um tema, mas a expressão de como a mostra foi pensada: a partir de vínculos, aproximações e influências mútuas. Sendo assim, o intuito é de que a bienal se desenhe como uma exposição que “privilegia a experiência acima do discurso, a descoberta acima do tema e a pluralidade acima da uniformidade”.

Nesse sentido, não podemos esquecer que a última edição da Bienal, “Incerteza Viva” curada por Jochen Volz, foi acusada por parte da crítica de ser uma “bienal baseada no discurso”. E que, portanto, seria “ideológica demais”. Rodrigo Naves, Aracy Amaral e Sheila Lerner foram algumas das pessoas que argumentaram que a 32ª edição foi sobre “tudo menos arte”. Dois anos depois, o contexto político nacional continua fervilhando, sobretudo, devido às atitudes de censura e congelamento das práticas artísticas. Será que essa bienal será considerada “alienante”? Isso realmente importa? E até que ponto repensar o fazer curatorial é uma atitude política?

Levando todo este contexto em consideração, parece sim ser possível extrair uma narrativa curatorial bastante coerente (e esperta) desta proposta geral. Afinal, se não existe tema, há necessidade de um título? Inclusive, a programação visual da bienal é centrada na economia de informações, com foco total no numeral “33”. O título aparece somente no rodapé do cartaz e entre colchetes. Enfim: não seria a escolha por um “não-tema”, um tema em si?

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De todo modo, ainda é preciso entender a partir de quais motivações cada uma das propostas d_s artistas-curador_s se auto organiza e como elas dialogam umas com as outras e com o núcleo central de Pérez-Barreto (que conta com outros 11 artistas). Pois, de fato, a tentativa de não instrumentalizar a produção artística, evitando utilizar as obras como ilustrações de uma premissa curatorial, é um exercício necessário e urgente. Porém, fica também a curiosidade de como o público receberá este formato “descentralizado” em uma bienal.

Talvez por isso mesmo, “presença, atenção e influência” são apresentados como conceitos centrais para esta edição, que afirma querer valorizar a “experiência individual do espectador”, apostando nas relações que emergem do conjunto das obras. Então, há uma expectativa em relação a este aspecto também. Porque é difícil imaginar estes pontos focais e intimistas dentro do timing dinâmico e panorâmico da bienal.

Enfim, estas são apenas considerações iniciais. E como a mostra acontece em um período estendido, temos uma janela temporal para assimilar ou reagir às suas propostas. Vale ter em mente que não é possível exigir transformação a partir da manutenção das coisas como sempre foram. Mas para alterar modelos hegemônicos é preciso acionar, ao mesmo tempo, o discurso sobre a necessidade da mudança e a proposição real de uma nova relação entre os agentes envolvidos nos processos artísticos, bem como uma nova maneira de lidar com o sensível. E já que esta edição é pautada justamente nesta proposta, caberá fazermos um esforço de compreensão da estrutura conceitual que sustenta (ou não) essa bienal. Até porque o limite entre uma mostra realmente disruptiva ou mais um panorama randômico é muito tênue.

Curadores e artistas convidados

  1. Alejandro Cesarco (Montevidéu, Uruguai, 1975) – Aos nossos pais: concentra a pesquisa em artistas que trabalham sobre tradução e imagem.
  2. Antonio Ballester Moreno (Madri, Espanha, 1977) – sentido/comum: propõe um diálogo de sua obra com referenciais que tratam da história da abstração e a relação com a natureza, a pedagogia e a espiritualidade.
  3. Claudia Fontes (Buenos Aires, Argentina, 1964) – O pássaro lento: pretende ativar questões envolvendo relações entre arte e narrativa.
  4. Mamma Andersson (Luleå, Suécia, 1962) – Stargazer II [Mira-estrela II]: elabora temas de figuração na tradição da pintura, desde a arte popular à arte contemporânea;
  5. Sofia Borges (Ribeirão Preto, Brasil, 1984) – A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um: prepara uma pesquisa sobre a tragédia e a forma ambígua;
  6. Waltercio Caldas (Rio de Janeiro, Brasil, 1946) – Os aparecimentos: desenvolve uma reflexão histórica sobre a forma e a abstração;
  7. Wura-Natasha Ogunji (St. Louis, EUA, 1970) – sempre, nunca: reúne um grupo de artistas que trabalham com proximidade, compartilhando questões sobre a identidade e a diáspora africana. Todos os trabalhos foram comissionados

A curadoria central de Gabriel Pérez-Barreiro traz projetos comissionados de oito artistas: Alejandro Corujeira, Bruno Moreschi, Denise Milan, Luiza Crosman, Maria Laet, Nelson Felix, Tamar Guimarães, Vânia Mignone, Siron Franco e homenagem a três artistas latino-americanos que atuaram durante os anos 1990 e faleceram precocemente – Lucia Nogueira, Aníbal López e Feliciano Centurión.

 

Serviço

33ª Bienal de São Paulo – Afinidades afetivas

de 7 de setembro a 9 de dezembro de 2018 / Entrada gratuita

Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera – SP

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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