Camila Vieira Crítica semanal

Brasil coisa nenhuma. Meu nome é Pindorama

Talvez esse seja um dos textos que me foram mais difíceis de formular, devido à toda a conjuntura política que vem se desenhando no país, à partir do golpe, e dos acontecimentos recentes. Recapitulando, nós brasileiros vivemos em uma democracia muito frágil, de fachada, diria, e a estética da violência é comum à nosso acervo histórico. Primeiro, a invasão que os Portugueses promoveram ao território brasileiro, causando o genocídio de nossos povos nativos, depois, a dura repressão do Estado às revoltas populares, como Contestado e Canudos. A transição do Império para a República se deu por um golpe. De tempos em tempos, ditaduras e períodos democráticos se revezam, entre avanços e retrocessos. Atentados não foram incomuns, a exemplo dos perpetrados contra os presidentes Prudente Morais, Pinheiro Machado e Vargas, sem contarmos os atentados políticos como o da Rua Tonelero, contra Carlos Lacerda, em 1954, a recente execução ainda não solucionada de Marielle Franco, em 2018, e os atentados contra a caravana de Lula e o acampamento de seus militantes. Por isso, procurei alguma teoria, alguma coisa que pudesse surtir de incentivo, esclarecimento ou alguma perspectiva sobre o horizonte nebuloso que materializa à nossa frente.
Ainda essa semana, perdemos um pedaço importante da nossa memória, com o Incêndio no Museu Nacional. Apesar termos a medalha de prata entre a nação que mais desconhece de si mesma, convivemos diariamente com pessoas que defendem o corte brutal do investimento em cultura, política neoliberal já implementada por Temer. Para todos os efeitos, culpem os comunistas. No Brasil ainda não saímos da Guerra Fria e a retórica fascista alavanca cada vez mais adeptos, apesar de toda a contradição que este discurso carrega,- a exemplo do candidato Jair Bolsonaro, que foi salvo pela política anti-armamentista que ele condena. É fácil ceder ao ódio num país de 13 milhões de desempregados e 63 mil mortos por ano. Estamos numa guerra, tão velada quanto o racismo estrutural que alimenta a nossa desigualdade e que mata o jovem periférico. O Brasil é um país de ruínas. Nossos monumentos são transitórios, nossa história é caduca, sofre de síndrome do pânico, de insônia e depressão. Se pensarmos sobre a história da arte brasileira, o caráter revolucionário, de uma chamada à consciência de classe surge mais ou menos a partir da década de 1960, antes disso, me perdoem os modernos, a revolução das formas e das cores, da expressão, da tentativa de quebrar o figurativismo esteve tão distante do povo quanto o era a universalização do ensino básico.
A arte que ultrapassa as barreiras de classe, atualmente, é a da hegemonia burguesa, encarnada na figura de Romero Britto, o artista mais conhecido entre os brasileiros, muito mais que Tarsila, incomensuravelmente mais que Hélio Oiticica. A retórica acadêmica da arte ainda não está chegando, como deveria, à essa população mesma que, pelo mesmo motivo, não consegue sofrer tanto quanto nós, que trabalhamos com cultura, sofremos ao ver um museu em chamas. A importância que estabelecemos com determinada coisa se dá no momento em que a conhecemos. O brasileiro não acessa o conhecimento porque a necessidade de sobrevivência se impõe às demais, e temos sobrevivido, e apenas isso, há mais de 500 anos de exploração e violência. Nós, que podemos elevar nosso conhecimento e pensar a respeito deste movimento de partidarização, precisamos pensar numa cultura revolucionária, numa imagética que chegue à raiz da mambembe da nossa sociedade, para, antes de tudo, curá-la. Não adianta reformar a história brasileira, os nossos pilares estão corroídos.
Nós sabemos que o motivo pelo qual a cultura no Brasil anda mal das pernas é a lógica neoliberal que rege os acordos políticos. O quê preservar dessa trajetória feia que temos, enquanto país? Quais classes conseguem de fato acessar o conteúdo imagético que é produzido e pensado na academia, e que vai para museus e galerias, geralmente localizados nas zonas centrais da cidade? Trotski acreditava que a verdadeira arte “ aspira a uma reconstrução completa e radical da sociedade”. Nossa sociedade foi construída sobre os cadáveres de índios e de negros escravizados. Nossa arte se desenvolveu sob os moldes estéticos dos mesmos europeus que promoveram essa barbárie. Pensando bem, não é possível que, seguindo essa lógica estrangeira, da produção alienada, feitas para alimentar o mercado burguês e perpetuar o Capital, queiramos, de alguma maneira, salvar o que já começou errado. Não há mais o que manter. A casa está assombrada. Antes de arder no Brasil criado pelos europeus, a nossa Terra era Pindorama. Se o caminho é o da destruição, que seja, Arte não precisa ser só cimento, ela pode também ser dinamite.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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