Carolina Lopes Crítica semanal

Na costura da tragédia, a imagem

Uma luz, de cor laranja e forte. Laranjas e vermelhos. A fumaça cinza alcança o céu. As cinzas voando aos arredores. Uma grande fachada, imensa, tem atrás de si a luz ardente do incêndio que consome o interior do prédio que agora jaz em ruínas. À frente da fachada, a estátua em contraluz, sombreia as luzes indiciárias. Escultura monumental de D. Pedro II, imperador da família real que já vivera no palácio que estava ali sendo destruído. A imagem toda é vermelha. Arde, em fogo e raiva.

Entremeando completamente o acontecimento hediondo, imagens.

No momento exato em que tomamos conhecimento dos fatos, chegam, simultaneamente, as imagens. Sobram, como indício, como lembrança, referência, memória, história. Parafraseando Didi Huberman, imagens , apesar de tudo.

Diante do acontecimento em si, qual o sentido das imagens? São muitas, imensas, graves, bonitas até. A tentativa de dar conta de um evento de uma grandeza ainda maior. Tento pensar aqui as funções que essas imagens acabam exercendo. Seja pela quantidade demasiada e intensa circulação, seja pela força e impacto capazes de alcançar. Talvez haja, na ânsia pelas imagens, algo de um desejo de ver o sangue jorrar, há uma ânsia de ver a tragédia em tempo real, revisitá-la, reassistí-la. Um tipo de fetiche pela imagem trágica. Nao sei se por fruto do modelo de jornalismo que hoje se faz no Brasil, ou também se o modelo jornalístico segue a ânsia fetichista. Logicamente, essas imagens, na condição de indícios, são como o véu da verônica. Passado o evento, ele perde a força de sua existência por si, e imagens acabam por reafirmá-lo. Dão a certeza de que aquilo, que é tão absurdo, quase fictício, de fato, aconteceu. Como uma testemunha que tenta falar com a voz tão audível quanto possível. Disse esta semana Eduardo Viveiros de Castro em entrevista, que gostaria da permanência da ruína do Museu, como um memento mori. A lembrança, subjetivamente dolorida, de tudo o que ali morreu. É também um aviso de que, aquilo que pode parecer tanto distante quanto trágico e cruel, pode acontecer.

Há também outro ponto: uma quantidade monstruosa de imagens. No mesmo passo que parece fixar a gravidade do evento, pode também produzir certo esvaziamento de sentido daquilo que expõe. De certa forma, é como se as imagens, sendo muitas, caminhassem num fluxo de naturalização do que representam, mesmo hoje. Andy Warhol já se utilizava de tal técnica, replicado inúmeras vezes imagens de artistas famosos. Na negociação pelo aparecimento, perde-se um pouco do conteúdo. Para além da repetição, há ainda o fator radical da questão: fotografias e vídeos são imagens, e tão somente imagens. Carregam em si, naturalmente, questões relacionadas à forma e disso não há como escapar. Entre as milhares de imagens que circularam esta semana, referentes a tragédia do Museu Histórico, há certamente entre elas, imagens belíssimas.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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