Crítica semanal Mayã Fernandes

Quanto vale a memória?

O projeto de sucateamento dos museus pelo Brasil não é novo. A tragédia que aconteceu com o Museu Nacional do Rio de Janeiro evidenciou o descaso político pela manutenção da memória. Para além disso, o desastre mostrou que a cultura não é prioridade para os programas de governo. Como chegamos neste ponto?

A história nos mostra que a partir dos anos de 1980, a noção de museu conservador e propagador de narrativas históricas cedeu lugar ao museu hospedeiro e propagador de exposições. Sônia Salcedo del Castilho¹ explica que a pós-modernidade estimulou políticas do ver e exibir, fazendo com que o leque de novas linguagens na produção artística, somando ao fortalecimento do mercado das artes e à formação de empresas culturais, ampliarem os limites expositivos, modificando a noção do que é um museu e também a de público visitante. As exposições tornaram-se arenas privilegiadas para apresentar imagens de si e do outro, legitimando determinada cultura. Dito isso, passo a desconfiar de qualquer tentativa de privatização e monopólio econômico/cultural, já que, assim sendo, não haveria transparência e obrigação de justificar as escolhas expositivas do museu.

Mas por que o interesse econômico? Não existe apenas uma reposta para essa pergunta. Arrisco dizer que o fato dos museus passarem a ser “monumentos”, ícones da modernização da sociedade, emblema da identidade cultural urbana, lugar obrigatório para a frequência turística e de lazer para o cidadão despertou o interesse de deter esse espaço e entrelaçá-lo como um possível local de consumo, não apenas de imagens, relacionando-se ao marketing cultural de grandes empresas.

Ao considerar que os museus são pontos de referências culturais, zelar pela sua manutenção é uma obrigação governamental, não podendo ser cogitada repassar essa responsabilidade para outros tipos de organizações.

O Museu de Arte de Brasília (MAB), por exemplo, situa-se no Setor Hoteleiro Norte, espaço prestigiado, estando fechado desde 2007, ainda aguarda uma licitação para sua futura reforma. A falta de verba para a sua reabertura entra em contradição com as inciativas culturais pontuais realizadas pela cidade, como shows com artistas nacionais em comemoração aos feriados. Dito isso, a questão permanece:  qual é a prioridade?

¹ CASTILHO, Sonia Salcedo del. (2014). Arte de expor: curadoria como  expoiesis. Rio de Janeiro: Nau.

 

maya


MAYÃ FERNANDES
 é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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