Crítica semanal Daniele Machado

Trauma pós-incêndios: as reações estúpidas de punir o reitor da UFRJ e fechar outros museus

Já constam dez dias desde que as chamas consumiram o palácio do Museu Nacional. As reações tem sido as mais ignorantes. De um lado, culpar a UFRJ e propor a retirada do MN da instituição e privatizá-lo. De outro, caçar outras instituições que estejam em uma situação precária de funcionamento.

Roberto Leher, atual reitor da maior universidade do país, vem sendo vítima de quem tenta forjar uma narrativa de incêndios derivados de má gestão. Quem é Leher? Dependendo de quem responder virá uma definição. Eu vou dar a minha. O ano de 2015 foi marcantes para os estudantes da UFRJ: iniciamos uma greve e elegemos um reitor. A primeira greve estudantil na história da universidade, a que depois se agregaram técnicos e professores. Na eleição da reitoria, em que os votos tem peso pela quantidade de integrantes de cada categoria, o voto dos estudantes tem menos peso que o de professores. Por consequência, estes últimos são fundamentais para definir as eleições, atrelado a despolitização de estudantes que não tem o costume de participar desse tipo de questão política na universidade. Pois bem, na eleição anterior Carlos Levi foi eleito com a participação de 3mil estudantes. Leher foi eleito com 9,5mil. Foram os estudantes que definiram sua eleição. Uma pontuação importante, o ano da eleição de Leher, coincidiu com o período em que começaram, com maior frequência, a aparecer escritos fascistas nas paredes da universidade.

Desde então, a luta dos estudantes da universidade passou a ter um canal de abertura. Este ano, foi criada Pró-Reitoria de Políticas Estudantis. Em 2016, os campus dos IFCS e da Praia Vermelha começaram a ter distribuições de quentinhas com os espaços adaptados para se tornarem bandejões. Neste mesmo ano, foi entregue uma parte dos quartos reformados no Alojamento dos estudantes. Tais ações, entre outras, não foram benevolência do reitor, mas sua obrigação. Ele mesmo reconhece que ainda falta muito para que a universidade acolha e respeite os direitos dos estudantes.

Então, curiosamente, um reitor eleito pelos estudantes vive o terceiro ano de sua gestão e já passou por TRÊS incêndio. O primeiro no próprio prédio da Reitoria. O segundo no Alojamento. O terceiro, agora, no prédio mais importante da universidade. Coincidência? Não acredito, mas também não seria possível provar. O que temos é um cenário de um mínimo de atendimento a demandas estudantis e uma reação literalmente inflamada.

Entre outras reações estúpidas ao incêndio do museu, como essa de tentar responsabilizar a UFRJ e seu reitor, temos a do Ministério Público Federal que pediu a interdição imediata de seis museus, 5 deles no Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, Museu da República, Museu Nacional de Belas Artes, Museu da Chácara do Céu e Museu do Açude. E, em São Paulo, Museu Villa Lobos. Todos não possuem autorização dos Bombeiros para funcionamento por não possuírem o sistema adequado a prevenção de incêndios.

O Rio de Janeiro já vem sendo o laboratório de como gastar dinheiro público fingindo dar segurança, com a intervenção militar. A única coisa que vejo ao sair de casa são soldados de touca ninja, sem identificação, que se sentem no direito de nos pedir identificação e perguntar para onde vamos. Se não se sentirem convencidos com a resposta temos que provar com documentos para onde vamos. Agora, já interditados no direito de ir, vir e permanecer vivos, podemos ficar interditados no direito à cultura. A violência não é um problema apenas do Rio de Janeiro, assim como museus precários. A intervenção militar não solucionou o problema da violência, assim como interditar museus também não será a solução para preservá-los. Seguimos como ratos cariocas de laboratório.

Leher vem sendo assinalado por muitos como responsável pelo incêndio no museu com o acervo mais importante do país que nunca recebeu a verba demandada para sua manutenção. A solução, segundo alguns é privatizar. Como vem circulando um meme na internet, a UFRJ com toda a precariedade é melhor que todas as universidades privadas. Segundo o MPF, a solução é fechar os museus. Se forem fechar todas as instituições de cultura que não possuem alvará dos bombeiros, arrisco que poderemos contar nos dedos as que poderão continuar abertas.  Diante do trauma, a reação imediata é se preparar para situações semelhantes em que se possa prever outro tão grande sofrimento. Se preparar para encerrá-las e esquecê-las. A solução não pode ser fechar e esquecer. O que mantem os acervos vivos é a convivência com o público e os estudos que são feitos sobre seus conteúdos e conjuntos. O que denota vida aos objetos, sua importância, são as pessoas. Isolá-los é fatalizá-los ao fim e ao esquecimento porque as verbas nunca virão. Morrendo as gerações que aprenderam sua importância, eles morrerão junto e não serão nada mais que quinquilharias. Se apenas tivessem em funcionamento os prédios das instituições de arte, ciência, educação e cultura que tivessem condições de funcionamento, sabemos honestamente que não teríamos quase nada. Fechar não é a solução.

Leher, estamos com você!

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

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