Camila Vieira Crítica semanal

Sobre uma possível estética brasileira

Talvez, no contexto que se desenhou à partir do Golpe de 2015, pudemos perceber com mais clareza o que eu vou chamar de Estética da Destruição. Como afirmei no artigo anterior, se colocarmos em perspectiva que o nome dado ao nosso país é concernente à brasa, à uma Terra vermelha e quente, talvez possamos refletir sobre o quanto este nome diz sobre a nossa nação. O nome do nosso país é o primeiro resquício da Colonização e da perda da nossa memória, da nossa identidade e da nossa riqueza material e imaterial. Havia, para nós, um outro nome que nos foi desapropriado por causa do lucro que Pau-Brasil poderia fornecer a uma nação minúscula, do outro lado do oceano. Nossa herança brasileira foi construída sobre um cemitério de nativos e de negros. Nossa história é extremamente sangrenta e injusta e, ainda hoje, lidamos com uma sociedade pautada sob os pilares da Casa-Grande, extremamente violenta e indigna com a população pobre, maioria absoluta no país.

A luta de classes aqui é de uma nitidez absurda, porém, assim como o racismo estrutural, é negada veementemente, o que revela o poder que a mídia hegemônica guarda. Toda ela está à favor do empresariado mais tacanho, que prega o discurso da Redução do Estado, por um lado, enquanto que por outro se utiliza de isenções fiscais e leis frágeis para explorar a mão de obra barata e abundante do brasileiro, que, num contexto de extrema insegurança, tanto alimentar quanto de moradia e alimentação, tende a procurar refúgio nas igrejas, cujos donos são estes mesmos os que controlam os meios de comunicação. Incapaz de se deslocar de sua casa para desfrutar, com a família, de suas poucas horas livres e com pouco dinheiro no bolso, devido à alta carga tributária sobre o consumo, a opção mais barata de lazer para o trabalhador passa a ser a televisão. Há um ciclo de alienação e absorção do discurso burguês e conservador que vêm de muito tempo atrás, forjado pelas elites desde que fomos divididos em Capitanias Hereditárias.

O interessante é notar que nem mesmo a propriedade privada, do pobre, é claro, é respeitada neste processo. Basta ver as remoções feitas à torto e à direito, quando o Estado quer construir Estádios e Cidades Olímpicas. Visto isso, não deve ser difícil supor que para a burguesia brasileira a população é gado. O que me instigou a escrever a  respeito destas desapropriações, inclusive, foi a mostra que está em cartaz no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, chamada Impróprio, porque traz à tona, através de fotografias em grande escala, os resquícios dos imóveis afetados pelas políticas de desapropriação da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro em 2016, anteriormente às Olimpíadas. As fotografias são de João Paulo Racy e a curadoria de Leno Veras. O Interessante de notar nessas fotografias, expostas em formato de lambe, é que há um cromatismo e uma composição que denotam as pesquisas pictóricas comuns a museus e galerias de arte, e por isso eu pensei que a destruição promovida pelo Estado Brasileiro também é estética.

Muito provavelmente existem estudos muito mais aprofundados e teóricos sérios que já tenham tratado sobre o assunto, porém a destruição, o desabrigo, o desfazer e refazer, a ruína, todas essas parecem ser palavras conhecidas do repertório brasileiro no que concerne à territórios e paisagens. Aqui aparentemente nada fica em pé. Só nos restam os escombros do Museu Nacional, do Museu da Língua Portuguesa, do próprio Ibram, que está ameaçado de extinção. Vivemos entre os escombros da saúde pública, do trabalho e da educação. Nossos monumentos são frágeis. Nossa história não consegue atravessar três gerações. As linhas familiares se desfazem tão facilmente quanto as políticas favoráveis à população e à frágil democracia que se tenta defender, sempre ameaçada pelas serpentes do fascismo. A violência do Estado brasileiro, chancelado pela pesada mão invisível do mercado, afunda sobre os ombros do trabalhador e o afasta de qualquer possibilidade reação, devido à sua busca pela sobrevivência. De fato, para viver neste país é necessário saber sobreviver. Mas não sejamos ingênuos, também ela, a sobrevivência, é estética.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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