Carolina Lopes Crítica semanal

Sofie Calle, stalker

Exposição pública de experiências privadas. Bisbilhotagem da vida alheia, com ou sem consentimento. Registros de atividades, pessoais e de outros. Elaboração de um personagem público. Construção de narrativas. Manutenção do compartilhamento de assuntos banais. Construção particular do outro a partir de fragmentos e indícios.

Sofie Calle, artista francesa que inicia sua carreira nos anos 1970, admite em sua obra todas essas características. Práticas, hoje, absolutamente comuns. Diferente da prática stalker, Calle age pessoalmente. In loco. Carne e osso. Old Style. Numa explosiva curiosidade, a artista incorpora o papel detetive e fuxica a vida alheia. Documenta, escreve, registra. É seu recorte, foco e apontamento para a vida real. Cru e claro. Transpassa a vida alheia à sua própria. Partindo, algumas vezes, de acontecimentos e experiências pessoais, Calle busca na experiência do outro um ponto comum. Não é também  algo sobre o qual procuramos, nas redes?

Vezes em consentimento, como na série Sleepers, ela convida estranhos para passar oito horas em sua cama. Fotografa-os dormindo, toma notas e chega a conclusões fantásticas acerca do outro. Disso tem clareza: suas conclusões não pretendem nada. Outras vezes, sem nenhum contato com a outra parte, põe-se a seguí-la. Em Suite Venitienne, Sofie segue um homem por 13 dias, fotografando e anotando todos os seus passos. A artista consegue uma vaga como camareira em um hotel e fotografa os objetos dos hóspedes, em The Hotel, Room 47. Mexeriqueira, Sofie elaborava um perfil daquelas pessoas com base em parte de seus pertences, deixados ali. Um mergulho transparente em uma vida que, ao mesmo tempo que é real, é também fantasiosa. Rompendo as fronteiras entre o público e o privado, Sofie transpõe as fronteiras entre o real e o fantástico.

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Suite Venitienne

Futrico. É um misto de força sedutora e cruel. Soso abraça o voyeurismo, em seu trabalho e em si. Com extraordinária naturalidade, ela pega parte da vida do outro e também dá, parte da dela. Faz lembrar Dona Carmosina, personagem de Tieta do Agreste, de Jorge Amado. Fuxiqueira até o fim, Dona Carmosina transita entre as vidas dos moradores da pacata cidade. Do modo tão simples que o faz, parece até fazer bem, sua participação nem sempre convidada. Em sua obra mais conhecida Prenez Soin de Vous, (Cuide de você), Soso recebe um email de seu companheiro dando fim ao relacionamento. Compartilha este email com mais de 100 mulheres, para que dêem resposta àquela despedida fria e intrigante. Neste trabalho, como em outros, Soso diz ser eficiente, quando se tratam de questões pessoais. eles esgotam o assunto.

                                                              Prenez Soin de Vous


Entre fotografias e textos, Soso exibe descomprometidamente. Num paradoxo, a potência desta aproximação é imediata e instantânea – somos comadres agora. Vizinhas de muro. Seguidoras no Instagram. O mesmo tanto que dá, é o que pega. Trabalhava já há anos na lógica das redes. Numa inteligência, tão gritante quanto singela, Soso fica no meio. Parece lançar o olhar mais despojado sobre o segredo, desvendando-o: o segredo em si é a coisa mais banal. Em
Le Divorce, uma fotografia de um homem, que urina. A mão que segura o pênis não é dele, é de Sofie. Acima, o texto brilha, honesto: “Em minha fantasia, eu sou um homem. Greg rapidamente percebeu isto. Talvez por isso, um dia me convidou para mijar por ele. Isto virou um ritual: eu ficava atrás dele, cegamente desfazia as calcas, colocava seu pênis pra fora, e fazia o melhor para mirar bem. Então, depois da sacudida habitual, eu naturalmente colocaria pra dentro e fechou o zíper. Logo após nossa separação, eu pedi a Greg por uma foto souvenir deste ritual. Ele aceitou. Então, num estúdio no Brooklyn, eu o fiz mijar em uma bacia de plastico, diante da câmera. Esta fotografia foi uma desculpa para colocar minha mão em seu sexo uma última vez. Naquela noite concordei com o divórcio.”Isto é uma fofoca.  

Traducao livre

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CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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