Candé Crítica semanal

O Manifesto

Os Manifestos morreram. Uma imagem do século XIX, das revoltas proletárias, aplicada à balde pela Arte Engajada em sua difusão pela História da Arte. Pelo menos àquela que se coloca narrando a História dos Estilos. Esse perfil moribundo de Manifesto tem ruído sob as fissuras nos Monopólios Narrativos. O Século XIX, mesmo que a assunção esteja passível de protesto daqueles mais anacrônicos, não originou o universo. Muitos foram proferidos antes e depois. Mas a imagem permanece.

Permanências são formas com as quais [re]construímos nossa imagem presente quando nos voltamos para o passado. Uma sistema do olhar que abrange um passado atroz em violências num país em guerra permanente. Um presente que não nos separa de nenhuma reprodução de iniquidades também presentes com o passado. E Resistência, uma das partes mais poderosas da Cultura Brasileira, aula dada com mérito por nossa Negritude, ainda é uma visão geral de um processo histórico brasileiro. Um olhar de mirante, daqueles que não esmiúçam daquilo que só pode ser acessado cara a cara. Nossos caminhos através das Fissuras nos Monopólios Narrativos já nos mostram o poder de aprofundamento no Conhecimento que tem dado forma à contemporaneidade. Resistência em muitos níveis. Mas, esmiuçando, vemos as perdas irreparáveis, as vitórias em avanços pra milhões de pessoas. Movimentos que dão forma ao mundo cotidiano. Principalmente as que permitem existências diversas em territórios normatizadores. Este é um contexto do que Manifestos tem se tornado ultimamente: imagens, formas narrativas, um novo sistema de linguagem invasora do tecido urbano. Símbolos-meio para produção de novas existências.

Hans Belting já passou seu processo de “não deixe a Arte morrer, não deixe a Arte acabar” n”O Fim da História da Arte” (que foi revisado, revisado, revisado…quase um blog). Esse “fim” é o processo de denúncia de uma dita Arte Universal que não correspondente à produção objetiva de Obras e Sistemas de Arte no globo. Uma imagem que propõe universal o apenas eurorreferenciado. E este sistema é um zumbi, daqueles que precisa ser abatido pra parar de assombrar a vizinhança. O resultado de muitos grupos, mais que engajados, que furam as barreiras instituídas da dominação estética europeia em nossa produção de imagens. Engajar-se em Arte já foi entendido como pobreza técnica, estética ou conceitual. Falarei mais sobre no futuro. Por ora, imagem e memória são patrimônio. Eles são poder. A Arte sempre teve suas potências valorizadas pelo Poder. Nítido que elitismos afastaram os olhares críticos. A Pólitica é o campo de batalha onde a crítica avança com seu exército.

Fui na abertura do “Manifesto Afrofuturista” com curadoria do Rafael BQueer. Uma proposta negra, brasileira, Afrofuturista. Afrofuturismo (já escrevi sobre, dá uma olhada) nasce dos discursos da Negritude Americana no século XX também como um movimento afrorreferenciado artístico. Fala do avanço da presença negra nos sonhos coletivos e aspirações societárias sobre o futuro. Uma quebra com uma imagem futurista embranquecida, marcada pela presença majoritária branca em suas representações. É uma visualização dos impactos desta construção embranquecida pra além da cobrança de postos de trabalho para pessoas negras em minisséries futuristas. Fala da construção de um futuro onde o extermínio negro não venceu no presente. “Space is The Place”, mote Afrofuturista estadunidense na década de 60, avança da fugidia imagem de um futuro onde só o espaço abrigaria a raça negra para uma Terra onde os conflitos presentes permanecem em disputa. O Risco, a incerteza, a insegurança quanto as existências negras futuras, estão todas refletidas nas obras dos 19 artistas neste “Manifesto”. O Casarão apertado no fim da Travessa bem localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro trás um cenário de ocupação, local desviado de sua função original, mas que adequado à proposta incorporadora da estética do futuro incerto visualizado por estes artistas habituados a viver pressões impostas pelos “ismos” de várias ordens para além da Raça. Trabalhos vigorosos como “Multiverso Exú” de Ismael Almeida, ou “Primeiros Traços” de Millena Lízia apresentam uma visão direta de onde estaria este futuro projetado. Enquanto as cosmogonias afrorreferenciadas tornam-se um núcleo de infinita expansão, com solicitação de licença poética aos físicos teóricos, em Ismael, o Futuro tem uma origem: o “Risco” de Millena.  Muitos outros trabalhos contribuem à construção de uma paisagem futura possível. Permeado por uma atitude confrontadora daqueles que heje tem a existência como dúvida. Yhuri Cruz mostra nova série de trabalhos incidindo sobre memória, paisagem e permanência. Ainda presentes com trabalhos notáveis: Aretha Sadick, Aline Calazanzs, Carol Dall Fara e Anderson Valentim. Artistas profícuos que se reúnem no “Manifesto” e o tornam uma das exposições mais inovadoras na Cidade do Rio de Janeiro hoje.

O Manifesto

Alguns elementos ditos tradicionais na cultura afrorreferenciada não estavam evidentes. Talvez esta seja uma perda futura irreparável. Uma presença na falta já que estas são uma das mais fortes expressões de nossa identidade no país. Entre perdas e riscos, os “engajados” pelo futuro da Arte Negra talvez apresentem o fôlego da demanda que esta abordagem ainda possui. O Fôlego das novas vozes ecoantes, negras, sedentas por algo inédito: um mundo onde nossas existências sejam reais, sejam possíveis.

Sim, ainda hoje, Manifestos fazem muito sentido.

 

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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