Crítica semanal Daniele Machado

O país do futuro – O país sem passado: como ser um povo sem utopia?

Sábado é o último dia em cartaz da exposição Junho de 2013: cinco anos depois. O último dia de uma mostra, depois que o público vai embora, restando apenas apagar as luzes, desligar os equipamento e fechar as portas, é sempre uma despedida. Se a aura da obra de arte entra em cheque com a reprodutibilidade técnica como assinala Walter Benjamin, talvez possamos pensar que a aura é transferida para a exposição: um conjunto de trabalhos que, a partir da sua disposição espacial, constrói um discurso.

Uma exposição não retorna. As obras individualmente podem ser reunidas novamente. Especialmente quando a arte se resumia às pinturas de cavalete ou às esculturas em pedestais, quando não havia um pensamento curatorial, quando uma parede no Rio de Janeiro ou em Nova York não fazia diferença. Pode haver uma remontagem em um outro momento, mas será um outro discurso a ser construído: outro local, outras paredes, outro tempo, outro público, por fim, outro contexto.

Daí a importância da materialidade. Já é ensinado tão pouco sobre a nossa própria história nas escolas e essa história já é ensinada de uma forma tão colonizada, que a ausência de acervos que de fato apresentem a nossa história é muito grave. A história fica no âmbito da abstração. A falta de orçamento para construir e preservar acervos, assim como, a situação colocada acima, sobre as escolas, é quase uma “colonização pós-moderna”. É a mesma denúncia que deflagra os muros brancos nas cidades e povo sem voz. É um projeto de assassinato do potencial revolucionário que pode emergir a partir da memória. Mal temos uma memória que, além de fraca, não há para onde retornar sem acervos.

A ênfase no Brasil como o país do futuro, deixou de ser uma promessa de sonho, para um fantasma que assombra, como que temos um presente eterno, insuportável. No atual momento, em que as potências naturais estão sendo fatiadas pelo capital estrangeiro, o projeto de crise econômica está sendo executado com sucesso, não há futuro. Se trata de um ciclo de violência nesse status “semi-colonial”: o mais perto que chegamos desse tal futuro é seguido pela sua retirada total. Um esquecimento radical do passado, em que um sentimento nostálgico remete a um tempo melhor que nunca existiu. Sem futuro novamente e mais longe de resgatar um passado material, não há horizonte. Como ser um povo sem utopia? Ivan Grilo fixa em duas placas de bronze que vivemos Tempos Difíceis e, no lado oposto, que Amanhã será maior. Outubro vem aí, mais nebuloso do que nunca.

Foto: Carolina Lopes

dani

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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