Camila Vieira Crítica semanal

Por uma saída cultural para a Crise brasileira

Pensando no cenário brasileiro atual e nos tempos sombrios que podem resultar as eleições de outubro, procurei na minha pesquisa algum norte para o complicado momento que vivemos, devido aos brutais cortes que sofremos na cultura, educação e na preservação do nosso patrimônio cultural. Não é novidade que, assim como muitos de nós, à esquerda, alertamos, o processo de Impeachment que se desenhou após a vitória do Partido dos Trabalhadores, no ano de 2014, foi o ponto chave de uma guinada à direita que, por brincar com a democracia e o devido processo legal, colocou o Brasil inteiro num abismo no qual só nos resta aguardar pela recuperação dessa mesma democracia, já tão fragilizada, ou pela volta da ditadura e da barbárie.

São sempre os períodos de depressão econômica e desesperança que eclodem os ovos da serpente do fascismo. Através de uma estética do ódio, grupos minoritários são acusados de serem os responsáveis pela desestrutura nacional e “por tudo o que está aí”. O interessante notar, porém, é que pelo fato de ser a 2ª nação no mundo que mais desconhece a si mesma, grande parte dos brasileiros que apóiam a opressão às minorias são os que pertencem à essa mesma minoria que advogam necessitar de repressão. A alienação brasileira vai muito além dos mitos criados à respeito de nossa suposta alegria e cordialidade. Somos cordiais com quem vem de fora, como quem, quando recebe a visita em casa, pede para que o visitante não “repare a bagunça”. Festejamos muito porque amanhã já não se sabe.

Num país em que se morre e no qual se mata muito, a insegurança diária nos faz buscar a proteção de Deus e festejar o Carnaval. Somos um país que exaltamos a miscigenação enquanto sexo, porém que repelimos, com veemência, o sangue negro e o sangue índio, por este mesmo temor à repressão. Aqui se nega que o racismo seja estrutural, assim como a xenofobia e o machismo, verificados, porém, diariamente nas estatísticas sobre a morte de negros nas periferias, o encarceramento em massa de pretos e pardos, a violência doméstica estratosférica e o ódio aos nossos vizinhos venezuelanos. O brasileiro só é cordial com aquele que julga superior.

A sinalização para a saída deste momento de crise política, jurídica, cultural e identitária, pode estar nesta crise mesma, pois, nunca como antes, as nossas veias estiveram tão expostas. Para expurgar, a ferida deve estar aberta. Agora que estamos neste momento crítico, podemos pensar em usar essa mesma cultura, tão recriminada pelos brasileiros defensores discurso hegemônico, para fazer o contra-ataque. Um exemplo histórico de como a arte pode ser uma saída é a Popular Front, nascida da insatisfação de trabalhadores norte-americanos que procuraram, através da cultura, novas formas de mobilização operária, durante o recesso econômico de 1929. No próximo texto, pretendo dar continuidade e destrinchar este tema.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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