Carolina Lopes Crítica semanal

Gabe Passareli em Queermuseu: O que fazer quando uma corpa vira cinzas?

Na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, último dia de Queermuseu, Gabe Passarelli, que também integrou o educativo da mostra e participou do ciclo de palestras da exposição, fechou a noite com uma performance, não combinada, na entrada do palacete. Gabe Passarelli é artista visual, formada em terapia ocupacional pela UFRJ, e teve, no início do ano de 2018, a irmã, Matheusa Passareli, também artista, de gênero não binário, assassinada violentamente no Rio de Janeiro.

Gabe cobriu o chão de carvão. Cobriu também o corpo de carvão, até estar completamente coberta. Gabe pixou as paredes do palacete centenário. “Cinza sobre corpa estranha. Escola não é banco. Prédio público. Queer Museu é farsa, apropriação. Fogo nos Racistas. Pense 2 vezes antes de nos expulsar, Sr. Diretor. O que fazer quando uma corpa vira cinzas?”

Arte / vida. Ponto em que, com esperanças, a arte enfim ultrapassa, em fluxo de mão dupla, as paredes do cubo branco e alcança a vida; levando e trazendo dela e à ela questões pertinentes a ambos os lados. A questão aqui é: e quando a arte / vida alcança uma vida que se dá em imperativos como falta de dinheiro, dificuldade de moradia, dificuldade de mobilidade, risco de morte, violências, abusos, etc. Como esta arte deve então se adequar, se é que dá conta? É possível, que ambos os lados incorporem tais questões? A arte, os espaços de arte, as escolas de arte, estão realmente absorvendo e permitindo que tais questões se incorporem, da maneira como seria possível?

Hoje é fato que a arte incorporou o assunto das alteridades, e terá de se adequar. Bem como museus, centro culturais, galerias, escolas, etc. E, do espaço que se propõe a abrigar uma exposição de nome Queermuseu, espera-se hoje, uma discussão efetiva que encoste às pautas mais urgentes ao assunto já urgente. Acompanhamos diversas críticas à exposição, nem sempre muito positivas, mas não é necessariamente aos trabalhos expostos ali que este texto se propõe falar.

Marina Benzaquem

A falta de trabalhos de artistas que fazem parte da discussão queer, que vivenciam de fato estas questões, é já uma questão contraditória da exposição, salvo pelo ciclo de debates que aconteceram durante o período da mostra. Entretanto, há também outras questões que ultrapassam a os pontos referentes à arte apresentada ali: o ponto em que tange diretamente a vida dos LGBTQ+. Na mesma semana, foi realizado um leilão de obras de arte, por parte da Escola, para auxílio à Casa Nem, um espaço de apoio a transexuais, que vem passando por graves problemas financeiros, implicando na incapacidade de apoio. Ouso dizer, que não é suficiente. Não digo aqui, que a arte tem a capacidade de mudar o mundo. Contudo, quando este lugar, o lugar da arte, incorpora estes assuntos, para que não acabe por somente estetizá-lo, deve então, ou pelo menos, tornar-se um gerador de gestos. A partir do momento em que acolhe uma exposição que toca assuntos urgentes, este lugar, em especial uma escola, deve pensá-los holisticamente. Já não é mais aceitável, dentro das discussões de alteridade, que o lugar da arte se detenha a pensar somente experiência estética – como na parte da mostra que ocupou as Cavalariças – sem também estender o pensamento artístico para atos políticos objetivos. Também não estou com isso, falando de responsabilidade social, mas de uma aplicação política e direta, ao debate sobre o qual se propôs discutir. A resistência de Queermuseu, deve se refletir no apoio a resistência dos queers.

Marina Benzaquem 3

Esta semana estive no primeiro de um ciclo de fóruns do #MarAberto, no Museu de Arte do Rio e, entre os assuntos que pautaram o debate, houve uma fala sobre o corpo que se desloca do ambiente privado ao público; está nele, pensa ele, escolhe como transitará por ele: este corpo está fazendo política. Partindo desta premissa, a movimentação política por parte da escola/centro cultural que abriga uma exposição de tão grande urgência, deve ser produzir movimentações e comportamento político também imediato. É necessária a postura responsável para com os LGBTQ+ em todos os âmbitos que esta escola/centro cultural é capaz de alcançar e apoiar.

Também no fórum, foram comentadas as aplicações práticas de cuidado sobre as vidas, que por vias de preconceito social ou de qualquer condição que a coloque como ‘minoria’, estão expostas a perigos iminentes. Por exemplo, quando mulheres negras estão expostas, por participarem de debates sobre assuntos de suas pautas, de modo a beirar o risco à sua integridade física. Rosineide Freitas, uma das palestrantes, com sabedoria e aplicabilidade política, disse deste exemplo: é responsabilidade de todas que estejam lá, cuidar da proteção desta mulher: pagar seu transporte mais seguro para casa, por exemplo, é um gesto de apoio político.

Marina Benzaquem 2

Deseja-se desde o estudo das profanações de Agamben, a profanação do próprio objeto da arte, flexibilizando os limites entre o objeto, a ação, o espaço, comuns à vida e as discussões do campo da arte. Romper com a santidade do objeto artístico e seu santuário. A profanação ocorre, enfim, em Queermuseu, sem que tenha sido convidada, como deve ser a profanação, com Gabe Passareli, que rememora a trágica morte, inaceitável, de sua irmã. Refaço aqui a pergunta pertinente de Gabe: O que fazer quando uma corpa vira cinzas?

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

 

 

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