Candé Crítica semanal

#EleNão e a rua como Imagem do Conflito.

Numa conversa com amigos, e hoje só somos capazes de falar de política institucional por conta das Eleições, fui confrontado com o argumento que “artistas não falam de Política”. Claro que é um argumento muito fraco, de alguém que não conhece muito do conjunto de Obras e Ações que a Arte fez e continua fazendo pela História do planeta. A Arte é uma grande interventora no tecido social, em tantas Culturas diferentes, que sua dimensão Política é quase óbvia. Claro que Trabalhos de Arte são muito diversos em temática. Porém sua existência é no mundo social. Sua existência é relacional, demanda da ação de interventores em diálogo – tanto artistas quanto todas as profissões e pessoas que a experimentam.
Tudo que é entendido como Arte é produto/agente da Sociedade que construímos e de seu sistema de interesses. O que não torna artistas especialistas em Política, certamente. Na verdade, os torna agentes em potencial para qualquer direção. Arte é mais uma ferramenta que um fim. Porque políticos somos todos e todas. Nossas escolhas impactam diretamente na vida coletiva. Cada vez mais somos construtores de novos paradigmas para o outro pela vida em cidades em rede. Uma trama cibernética que nos une apenas pela visualidade das telas de nossos smartphones. E que já faz um belo estrago nos sistemas sociais do Século XX. Os millennials, nós, somos a geração mais difusa e bem informada da História. Mesmo só vendo as atualizações das Divas Pop ou de seu Time de Futebol, a quantidade objetiva de informação acessada pelo humano atual não tem precedentes. E a chuva de informações tornaram as velhas cosmogonias em lixo barato de cidade do interior. As verdades são mais frágeis… ou demandam argumentos muito mais complexos para existir.

 

EleNão e a rua como Imagem do Conflito foto de corpo 02

Na construção de argumentos suficientes à sobrevivência das verdades do Século XX , grupos engajados tem a Rua como campo de batalha material (já que a internet é o ringue dos trolls). E cada vez mais uma verdade rígida, absoluta, tem se mostrado moribunda. Insuficiente para se relacionar com cosmogonias, culturas, pensamentos e grupos diferentes do próprio. Vemos uma revolta pela manutenção de crenças absolutas e o aprofundamento da violência como único argumento possível à permanência da própria convicção. Uma guerra real nas Ruas todos os dias.

As intervenções Urbanas estão profundamente afundadas nesta porrada. M.I.A. é o coletivo de interventores que pintou a estátua gigantesca dos bandeirantes feita pelo Brecheret. Vamos emparelhar com a intervenção do M.I.A. a do Pastor Tupirani e sua Igreja Geração Jesus Cristo. Muita coisa os une além de já terem apanhado da Polícia de uma grande capital brasileira. Suas ações são consideradas ilegais, um atentado ao patrimônio, e ambos criam argumentações legitimadoras da violação da lei. Enquanto o Pastor criminoso diz que a Constituição Brasileira deve ser desobedecida em nome de sua verdade crística, M.I.A. age diretamente fundamentada na Desobediência Civil de Hannah Arendt (e/ou Henry Thoreau). Argumentos diferentes que articulam o mesmo eixo da desobediência. A Opressão colonizadora genocida solidificada no monumento do Ibirapuera aos Bandeirantes, para M.I.A., deveria ser corrompida como marco de sua atual fragilidade. Já Tupirani quer que todas as crenças diferentes da sua morram porque é a vontade do deus dele.

elenão foto corpo de texto 02

A Rua é o conflito. O espaço fruto de histórica desigualdade. Da coabitação entre impossíveis. E nada pode impedir o caminho do conflito. Aceitação e tolerância demandam mais tempo que a raiva ou o medo. E talvez nada possa impedir fraturas. Hoje as Ruas brasileiras resumem nosso ódio mútuo. Ele sempre foi presente. Ditadores numa esquizofrênica vontade de reviver um passado ilusório de uma Autocracia Militar idealizada acreditam que sua própria existência depende da destruição de todo resto. Talvez seja verdade. A cultura da velha dominação corre o risco de desaparecer. Enquanto isso, inúmeras interpretações entendem que o pensamento esquizofrênico é um grande risco para as maiorias nacionais como mulheres e negros (e muito mais as minorias como LGBTQIA+ ou, infelizmente hoje minorias, comunidades indígenas e quilombolas). E estão dispostas a intervir por sua também sobrevivência… e, no fundo, todos e todas já tomamos nossas decisões torcendo para um desfecho. Algumas estradas são inevitáveis?

Rua é conflito e eu te vejo lá.

#EleNão #EleNunca #EleNemFodendo

 

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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