Crítica semanal Daniele Machado

Narrativa e observação: esquecer é fácil

Quando comecei a investigar o incêndio do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) em 1978, ficava intrigada sobre um esquecimento rápido demais daquele evento. Até então era o caso mais trágico de destruição sofrida na América do Sul por muitos motivos, especialmente, a coleção do Universalismo Construtivo de Joaquin Torres Garcia.

Hoje, quase 1 mês depois do incêndio do Museu Nacional, cuja proporção de perdas extravasa este subcontinente para o mundo todo, já se esqueceu. Se esqueceu no fim de semana seguinte em que as pessoas foram à Quinta da Boa Vista fazer piqueniques, se esqueceu nos jornais e no cotidiano, nas conversas de bar. Só se fala de eleição.

Não se trata de uma crítica que culpabiliza de forma quase cristã quem esquece. Não se trata de ser bom ou ruim. Mas se trata de escapar às narrativas impostas a partir de uma observação ativa. Em outras palavras. O assunto que a grande mídia bombardeia, dispara uma rede que é construída de forma veloz e não se fala mais sobre outra coisa. Um assunto que deixa de ser falado pelos grandes jornais é esquecido.

Os lugares de lembrar e esquecer são delicados, uma disputa em que não haverá um vencedor com mais razão do que os outros. A questão não é lembrar também de forma punitiva. Esquecer não é fracassar. Mas, escolher lembrar, escolher esquecer, estar atento para as narrativas impostas, o rumo delas, optar como, quando e por onde se deslocar dentro ou fora delas é autonomia.

Na foto em destaque nesse texto, há um “tremzinho”, desses de turista, com pessoas fantasiadas de super heróis que passa por lugares turísticos. As ruínas do museu se tornaram um desses. Parece performance, mas não é.

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

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