Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Coleções como histórias vivas

Quando o Museu de Arte do Rio decidiu vender a pintura “No. 16” de Pollock, a polêmica foi grande. Muitas pessoas e entidades se manifestarem contra, argumentando pela importância da obra não só na coleção do MAM, mas sua presença (única) no Brasil. Mas passados seis meses desde o anúncio, a questão parece ter sido esquecida.

Enquanto a decisão do museu carioca foi muito criticada por aqui, nos EUA, um fato semelhante ganhava enorme repercussão positiva. Em maio desse ano, o Museu de Arte de Baltimore decidiu vender obras de artistas homens brancos (entre eles Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Franz Kline e outros “mestres” do século XX) para financiar a compra de outras peças de artistas pertencentes a coletivos sub-representados em seu acervo, principalmente de mulheres e afro-americanos, com objetivo claro de tentar corrigir o cânone da arte.

Foram adquiridas obras de artistas como Wangechi Mutu, Isaac Julien, Njideka Akunyili Crosby e Lynette Yiadom-Boakye, todos eles oriundos da diáspora africana. Na lista também figura Amy Sherald, artista afro-americana de 44 anos que reside em Baltimore desde 2002 e que ficou conhecida quando Michelle Obama a escolheu para assinar seu retrato oficial.

A revenda de obras dos acervos museológicos não é comum na Europa, onde elas costumam ser patrimônio público e, portanto, não podem ser oferecidas abertamente a compradores, salvo algumas exceções. A prática é muito mais habitual nos EUA, onde os museus tendem a ser estruturas privadas e funcionam com relativa autonomia.

Aqui no Brasil, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) lembrou que a obra de Pollock não é tombada. Inclusive, nem o próprio MAM Rio, nem o seu acervo, são tombados. Portanto, a venda de “no. 16” não requer autorização federal.

O Ministério da Cultura, por sua vez, apoiou a decisão do museu carioca. O órgão afirmou em nota, na ocasião, que “reconhece e valoriza a autonomia do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro”. E que a venda do quadro de Pollock “irá assegurar a conservação adequada” de todo o acervo remanescente do museu.

Se por um lado é verdade que temos pouca disponibilidade de obras e exposições internacionais no Brasil, por outro não é como se a produção e o acesso às obras nacionais estivessem garantidos. Longe disso. A dificuldade de sobreviver enquanto artista e instituição (pública e/ou privada) neste país é indiscutível. Também há de se refletir se valorizamos de maneira equivalente os canônes europeus e norte-americanos e os brasileiros. Aliás, os cânones nacionais, de fato, existem? Se sim, eles representam a nossa diversidade, incluindo a maioria populacional de afrodescendentes, povos originários e mulheres?

Essas perguntas permanecem sem resposta. E, entre diversas instâncias, coleções são constituídas de memória. Mas aí está uma dimensão que, muitas vezes, parece não fazer parte do repertório sociocultural brasileiro.

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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