Camila Vieira Crítica semanal

Por um projeto brasileiro de Arte

Em continuidade ao texto anterior, no qual alertei sobre a necessidade de colocar a cultura enquanto motor econômico de um cenário de reconstrução nacional, propus que olhássemos para a experiência norteamericana dos anos 1930. Para entender melhor o contexto, o cenário norte-americano é o do anti-stalinismo, que desencadeou a disseminação teórica marxista, de modo a aflorar a criação de jornais, revistas e meios de comunicação que pensaram a teoria pelo viés do trotskismo. Clement Greenberg, crítico de arte norte-americano, assegura, à época, que o trotskismo pode ter sido o principal responsável pelo que, posteriormente, se transformou na arte-pela-arte[1], desencadeando variações estéticas que, adiante, fugiriam ao seu próprio princípio teórico acerca da “pureza dos meios”.

Apesar de boa parte dos intelectuais nova-iorquinos daquele momento concordar que a arte e a cultura são meios revolucionários e que seria premente expandir os horizontes da produção artística, através de integração entre a indústria e a produção individual, diretrizes defendidas pela III Internacional, as mudanças oriundas da política soviética comprometem a influência erudita do Partido, em solo norte americano. Fundamentados pela teoria anti-stalinista e contra o fascismo, para estes intelectuais a arte é fruto do desenvolvimento autônomo da liberdade do artista que, por este motivo, deveria manter suas conquistas pictóricas e formais, esquivando-se de qualquer compromisso partidário que possa limitar sua ação. Mantendo, o artista, seu compromisso histórico e político, sua produção, segundo estes teóricos, consequentemente assumiria por si só um caráter revolucionário, que se caracteriza pela necessidade de emancipação do Homem[2].

O Projeto Federal de Arte[3], criado por Holger Cahill, em 1936, segundo a política do New  Deal de Theodore Roosevelt,  assevera que para se criar uma cultura verdadeiramente operária era necessário mesclar a produção industrial e artística de modo a fomentar uma ampla mudança social, através da identidade do artista enquanto trabalhador e de outros espaços para a circulação da produção criativa, permitindo a expansão das artes através equipamentos culturais e da dinamização da atividade econômica. Resgatar este momento histórico me faz lembrar que vivemos, de fato, uma crise de grande escala no país, porém que desde há muito tempo atrás que a cultura vem sendo relegada e posta de lado, muitas vezes tratada como um gasto ou como uma pauta supérflua pelo Governo Brasileiro, ao longo das décadas. É interessante pensar projetos, assim como o Federal Art Project, que coloquem a cultura no centro de produção e reconstrução industrial do país.

Creio que a realidade brasileira, na qual o instinto de sobrevivência sempre fala mais alto, não permite a universalização do acesso às artes enquanto a produção criativa não fizer parte da realidade econômica do país, como uma necessidade tão premente quanto a educação básica. Obviamente, não deixo de considerar que o Capitalismo não é o sistema econômico ideal para a produção criativa, contudo, precisamos pensar um país mais justo e mais ciente de si. A educação pela arte e a integração das Equipamentos culturais pode ser uma saída à essa realidade de degradação e de abandono que a cultura brasileira vem vivendo, desde a fundação da República.

[1]  Cf. GREENBERG, Clement. The late thirties in New York. In: Critical Essays. Beacon Press Boston: Masssachusetts, 1984.

[2] Cf. BRETON; TROTSKI. Manifesto por uma arte independente.

[3] Política de financiamento cultural de Roosevelt, ligada ao WPA (Work Progress Administration), a mais importante agência de fomento ao emprego do New Deal.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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