Crítica semanal Mayã Fernandes

Com quantas fraquejadas se faz uma primavera roxa

Brasília, a redoma de vidro, é moradia para os ratos que Clarice Lispector tanto temia e chegaram ao poder. Na vida, aprendi com as histórias de ninar, que os ratos moram na dispensa, e na surdina da noite, aproveitam para morder os dedos dos pés. Com o prelúdio das eleições, eles se agitam, alguns se afogam, outros boiam como dejetos e envenenam o que está em volta, tornam opaca as mentes dos candangos.

– “Rouba, mas faz”

– “Bandido bom é bandido morto”

– “Sobre pais que choram no banheiro”

Camuflados, verde amarelo disfarçados, armados de boa intenção. Na maior perfeição, a cidade é impiedosa e o conservadorismo se alastra sobre os engravatados do congresso. Nos carros com ar-condicionado, a classe média, enrustida, justifica o seu fascismo na meritocracia, sendo necessário às minorias que são maiorias uma argumentação para sobreviver.

O eixo monumental já não suporta a cavalaria. As balas correm sem pedir permissão, sem consultar o bom senso ou a legitimidade. Sou como Manuel de Barros: “Só bato continência para árvore, pedra e cisco”.

Da secura do cerrado, no Planalto Central, somos a voz que ecoa, o levante que ocupa as ruas largas e mostra que mesmo na cidade projetada para não existir o arbítrio e a livre manifestação, ainda existe: #ELENÃO.

Na Torre de TV a multidão sob o sol se agita e percorre em todas as direções. Os tambores puxam a marcha. As vozes rasgam o asfalto e, maciças, rebatem a opressão silenciosa. A formação de base e o despertar de uma consciência política é urgente. Não adianta fechar os olhos e fingir que não vê. Aqui, o posicionamento dos mais pobres é um enigma.

Diante os últimos acontecimentos, as palavras de Gauguin ecoam: Donde viemos, o que somos, para onde vamos?

 

maya


MAYÃ FERNANDES
 é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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