Candé Crítica semanal

Tá difícil, tá complicado.

Essa foi a fala do motorista esta manhã quando conversávamos sobre política enquanto ia à faculdade. E tá muito mesmo. Vemos um levante de grupos organizados com verba internacional implementando uma Agenda Econômica de austeridade fiscal e progressivas privatizações de empresas públicas lucrativas. Uma Agenda bem cachorrinha adestrada dos estadunidenses, que mais uma vez, e agora de forma bem escancarada e sem joguinhos diplomáticos, faz do mundo seu fiador. Desconta sua crise de endividamento e colapso social nas costas da América e Ásia. E pra isso, não esqueça que falamos de quantias vultuosas de dinheiro do qual não temos como mensurar em nossa vida de assalariado, não se economizam baixarias dos níveis mais abaixo do chão possíveis. As pós-verdades em fake news, desvirtuações grosseiras da História e deslegitimação da Ciência como um todo. Novos mecanismos de se assegurar processos de produção de verdade longe do escrutínio crítico de agentes não pactuados com as elites financeiras.

Até porque Neoliberalismo é mais uma ideologia crística, muito similar aos “ismos” do século XIX, que em vez de enganar pobre preto, enrola branco classe média. É ideologia e ideologia é a versão laica da crença. Meios de se manifestar a fé em algo maior. E os Neoliberais acreditam no deus mercado como o ente equalizador de todas as moléstias assim como é o Estado para Comunistas. E a fé move montanhas… muitas vezes de corpos humanos mesmo. A guerra pelo dogma verdadeiro tem matado inescrupulosamente sob os lemas da virtuosa salvação da sociedade pelo deus que se adora.

O que é mais louco é a certeza que cada deus é o todo poderoso e manifesta na realidade as evidências de seu poder maior. Mesmo cada grupo adorando seu deus onipotente, temem ser destruídos. Contradição óbvia. Mas hipocrisia, intolerância e contradição parecem ser a matéria base da Sociedade Ocidental. O medo do seu deus perecer e de sua verdade ser desfeita. Seu deus é tão fraco assim?

Um dos meios de se atacar as verdades críticas ao deus mercado tem sido atacar o conhecimento consistente produzido pela academia mundial nos últimos 60 anos. E os grupinhos de vira-latas adestrados que se mijam todos quando escutam Miami tem a pachorra de atacar a Ciência. De “aborteiras assassinas” aos “ateus pederastas”, cientistas internacionais com anos de pesquisa e formação tem recebidos nomes como estes (dentre outros menos criativos). Atacam evidências óbvias falando asneiras sobre a realidade. Pessoalmente adoro a gramática normativa e, como historiador de arte, ao conversar sobre política e história com a classe média branca adestrada é como ouvir “táuba”, “seje” e “pobrema” num looping interminável. Muitas mentiras históricas são lançadas sem vergonha alguma. Sem medo de ser retardado. Zero. E estes ataques impossibilitam o discurso já que ele baseia-se fundamentalmente em retórica, lógica, troca cognitiva. Sem uma razão estruturada, não há debate ou diálogo. Sem diálogo, há autocracia.

Além de beirarmos o início do fim da democracia republicana, nada desculpa a adesão de uma massa significativa da população aos discursos da desinteligência mal-intencionada dos grupinhos adestrados. Não penso que as narrativas neo-fascistas tipo brazuca, um revive escroto pior que o retorno do maximalismo, sejam fruto de uma manipulação terrível. As pessoas são capazes de pensar por si e escolher. As máximas neo-facistóides já eram ouvidas nas ruas e casas brasileiras muito antes de ganharem seu “mito” porta-voz. As pessoas apoiadoras pensam atrocidades mesmo. Querem negros, mulheres e LGBTs em seus devidos lugares que são respectivamente: escravizados, submissos e mortos. Alguém espera que um assassino diga a verdade sobre seus crimes? Racistas vão assumir suas responsabilidades? Racistas querem o direito de permanecerem como estão sem questionamento. Esperem a retratação da família Marinho deitados, meus caros. E sim, infelizmente, muitos deles são seus parentes. Claro que os grupos aproveitam a sujeira humana na população brasileira para disseminar sua Agenda Econômica. Elas são como vias, instituídas há gerações de safados, e facilmente utilizáveis apenas usando um dogma reativo dizendo que “algo blasfema alguma coisa”. Queer Museu? As “aborteiras” da Marchas das Vadias? “Ideologia de Gênero”? Intervenção do Exército nas Favelas? Apenas exemplos.

Estas pessoas, as milhões que defendem as políticas irracionais da morte em massa como os alemães nazistas, são nosso real problema. Como hoje não mudamos nossas casas e famílias? Como não arrastamos pra fora da sociedade um comportamento tão destrutivo? Alguma vez quisemos realmente acabar com estes pensamentos odiosos? Crescemos numa geração à sombra de processos políticos revolucionários nos perguntando: mas então qual é a nossa luta? Quem é nosso inimigo?

Quem? Pois que vos apresento, caríssimos, a maior inimiga de nossa geração, àquela que nunca foi inocente: A Ignorância.

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

 

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