Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Bolha Rio

As feiras se tornaram relevantes para o mercado da arte nas últimas décadas, a medida em que foram se tornando eventos complexos de promoção de vendas que se associaram a programações culturais paralelas de referência para um público-alvo, que incluem desde festas e vernissages, até palestras, performances e visitas-guiadas.

A Art Rio, que aconteceu na semana passada na Marina da Glória no Rio de Janeiro, encerrou sua oitava edição comemorando recorde de público (48 mil pessoas) e boas vendas. Em meio às 87 galerias presentes na feira (17 a mais do que no ano passado), as conversas eram de que muitos negócios foram fechados já nos dias iniciais. E parece que, de fato, nenhum expositor saiu no prejuízo. A obra mais cara da feira, por exemplo, tinha valor superior a R$ 20 milhões: “Bumba meu boi”, de Di Cavalcanti.

Claro, ficamos felizes com os bons rendimentos. Mas a sensação de “bolha da arte” nunca foi tão incômoda. Sobretudo durante o sábado, enquanto a maior manifestação de organização feminista da história do Brasil tomava as ruas de todo o país, os apertos de mãos e os brindes com taças de vinho branco davam uma atmosfera demagógica à feira. E até a crise econômica parecia boa coisa: com a moeda nacional tão enfraquecida e o câmbio favorável aos compradores internacionais, a arte brasileira virou um negócio irresistível.

Mas será que fatores como a instabilidade do cenário político, a indefinição na tributação no setor, a exemplo das taxas de armazenagem de obras de arte em aeroportos, e tragédias como o incêndio no Museu Nacional podem, realmente, isolar ou projetar o Brasil em relação ao circuito internacional? Quem sai ganhando com isso?

Parece que, apesar da crise política no Brasil, as feiras de arte cumprem o papel de preserva o status quo. Por mais que muitos dos trabalhos em exposição fossem fascinantes e instigantes (e até mesmo engajados), a impressão de que a feira se apresentava como uma bolha, completamente desconectada da realidade atual, era gritante. Ao mesmo tempo, uma feira tem que apresentar um posicionamento?

Adaptação, colaboração e experimentação têm sido estratégias das galerias brasileiras para enfrentar o cenário de crise generalizada. Algumas galerias brasileiras reduziram suas participações em feiras estrangeiras e se concentraram no mercado interno; outros aumentaram sua presença nas feiras internacionais e ainda outras optaram por fazer menos feiras, mas abrir locais próprios no exterior.

O fortalecimento do mercado local é uma questão de educação de longo prazo, não apenas para os colecionadores, mas também para os galeristas. Ao mesmo tempo, continuamos nos perguntando sobre a relação entre políticas públicas de fomento aos artistas e formação de público. Mas uma coisa parece inevitável: que após as eleições deste final de semana, muitas bolhas irão explodir.

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

 

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