Camila Vieira Crítica semanal Sem categoria

A rigor, salve-se quem pude

Estamos à poucos dias de decidir o rumo do país, e não digo para daqui a quatro anos, mas para daqui a décadas, quem sabe séculos. Nitidamente vivemos um momento histórico. Esse momento vai se desdobrar para além desta década, quer queiramos ou não. Seremos o tempo datado do milagre brasileiro ao Golpe Brando e da ascensão do Fascismo que, vencendo as urnas ou não, desaguou numa miríade fanáticos raivosos, saídos do armário do conservadorismo. Neste ínterim, nunca a anti-política esteve tão plena. A estética do medo, o apelo à violência e a destruição do inimigo interno compõem o quadro do culto à personalidade de um novo salvador da pátria. Assim como o racismo, o fascismo à brasileira estava escondido, era estrutural, se manifestava, mas não tão claramente a ponto de podermos dar nome a ele. O ódio de classe, de gênero e de cor sempre esteve presente na estrutura deste país colonizado, rico em recursos a cujos pobres brasileiros nunca tiveram acesso.

Dito isso, não é coincidência que o brasileiro almoce assistindo ao Brasil Alerta, ou programas televisivos que se pautam em mostrar violência cotidiana, gratuita e irresoluta. Nossa nação é, desde a colonização, uma nação da barbárie. Nesta sexta-feira, ao passar pela praça que abriga o metrô Carioca, me chocou uma cena que já diz muito sobre a verve justiceira do brasileiro: nas grades que cercam o museu franciscano estavam os bonecos estilo malhar-o-judas dos atuais candidatos à presidência, Haddad, Marina, Ciro, Alckmin e Bolsonaro. À frente deles, uma mesa com um pau, uma panela, um chinelo e uma faca. Lembraria muito a performance de Marina Abramovic, não fosse o dado de que aquelas eram representações de figuras públicas e não o um ser-humano real. Mas, sabemos nós, que lidamos com representações, o quanto se esfaquear a representação de um candidato ou bater-lhes com a frigideira na testa é o pano de fundo para uma vontade real, ainda não manifesta, que afasta qualquer senso de reflexão. Isso eu chamo de estética da anti-política.

Nós já vimos enforcamentos de representações de candidatos nas manifestações a favor do Impeachment e presenciamos quando fundamentalistas se postaram à frente do SESC Pompéia, em São Paulo, contra a filósofa Judith Butler, igualmente representada por uma boneca, posta à uma fogueira. Já houveram tiros reais à caravana do Lula, e uma facada real ao messias dos conservadores, Jair Bolsonaro. Dia 7 de outubro, os brasileiros vão às urnas votar com a bílis. Já não espero que sejam tranquilas as eleições, com plena certeza haverá atrito entre eleitores. Somos um país de pessoas nada cordiais, como mostramos, com xenofobia, aos venezuelanos. Somos um país de pessoas que detestam os Direitos Humanos e o Comunismo, seja lá o que isso significa. Um país de golpes, avanços e enormes retrocessos, como demonstra a história da nossa Jovem República que milagrosamente escapa, em alguns períodos, à mão-de-chumbo dos militares. A rigor, salve-se quem puder.

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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