Candé Crítica semanal

Mitologia brasileira

Ser um iconoclasta se tornou parar no tempo há um século numa adoração perdida à deuses esquecidos. Coisa antiga, romântica, da era do pensamento ideológico moderno – mesmo que os movimentos de quebra iconoclástica sejam bem mais antigos. Falo porque talvez o que chamamos de ícone seja o nome dado por nossa cultura aos fenômenos neurolinguísticos que nos permitem formar símbolos que atuem tanto em nosso cérebro consciente quanto inconsciente. Existe força nos ícones. Conferida pelo funcionamento de nossos corpos. Reiterada cotidianamente a cada exposição imagética. Algo como “os ícones falam mais do que palavras” já que ativam nosso cérebro subjetivo. Uma influência que não pode ser negada.

Acabei indo na exposição dos Marinho, sim, da coleção da família posseira desde a Ditadura Militar do “Quarto Poder” Nacional. Quem se importa com as Obras Modernistas Brasileiras? Além dos colecionadores em busca de valorização de acervo… pouca gente realmente se importa com o Modernismo dos playboys paulistas do século passado. O que interessa é a dominância narrativa de uma perspectiva de Brasilidade Modernista Clássica: a branca, masculina, elitista. Um retrato do falo dos Marinho invadindo a narrativa nacional com vias de legitimar sua visão esquizofrênica de uma família relacionada com eugenistas e autocratas por toda sua história. Uma exposição esvaziada de sentido, com obras dispersas, que administram um gosto pessoal por Arte sob o manto sacro dos agentes do Modernismo Brasileiro – um momento marcante para as elites nacionais que conseguiram ao menos uma vez equiparar seus movimentos artísticos periféricos aos atos das elites européias. Foi onde Monteiro Lobato afirmou acertadamente avisando sobre o vira-latismo paulista de 30. Certo até começar a eugenia louca.

Identidades Nacionais eram construídas sobre lendas e mitos populares inscritos nos novos Estados Nacionais consolidados mundialmente durante o século XIX. Pensamento morto com os diálogos da complexidade do Século XX onde novos protagonistas alçaram posição de narradores e narradoras, complexificando nossa imagem identitária. Talvez nossa própria identidade tenha parentescos latinos e africanos muito mais poderosos do que uma elite branca se interessa em conceber ou participar.

mitologia brasileira foto de corpo de texto

Foi um dos períodos mais ideológicos da História. Onde grupos referenciados em ideais de sociedade e mundo disputavam ferozmente pelo controle de sua narrativa. Das disputas da laicidade e formação das repúblicas à condução das mesmas através de representações democráticas: Ideologias são como religiões com processos cosmogônicos, representações metafísicas, que proporcionam uma falsa segurança quanto ao funcionamento do mundo, suas regras e construções possíveis. Os ícones sem ideologia são cascas ocas sem qualquer função. Um retrato da exposição “Modernismo 10”: cascas ocas de uma identidade brasileira forjada… que não emplacou. É uma exposição que reafirma o protagonismo dos Marinho no domínio subjetivo da sociedade brasileira. O alvo da exposição são os agentes da Arte no País. Nenhum grande diálogo entre arte e sociedade é proposto. Mas as obras, já caríssimas, só tendem a se valorizar…

Os tempos atuais são de verdades tendo seus atores protagonistas atacados e profundamente questionados quanto a sua credibilidade e potencial manipulação dos fatos. Fatos também são super dimensionados ao grau de verdade. E a mídia mundial tem sido alvo de ataques diretos de agentes políticos conservadores. Desde as eleições de Trump nos Estados Unidos da América temos uma enxurrada de trabalhos acadêmicos buscando interpretar os “fatos” da vitória eleitoral de discursos conservadores contra políticas sociais mesmo em áreas de altíssimo desemprego e pobreza. Ando lendo o livro da Arlie Hochschild, “Estranhos na Própria Terra” sobre como Estados Estadunidenses Pobres adotaram massivamente o austero discurso presidencial de Donald Trump (livrinho que além de premiado foi um dos seis livros fundamentais pra entender Trump segundo o The New York Times). Uma aula de como sociedade é muito mais que racionalidade. Em seu livro ela explora o pensamento do homem branco médio sulista estadunidense em sua busca iluminada pelo “sonho americano” (Devo aqui inserir a tarja de “ultra ideológico” em “sonho americano”? Não? Ok.). Nela o branco médio observa pessoas negras, mulheres, LGBTs e demais minorias alvo de políticas sociais básicas como “burladores” e “furadores de fila” que mal chegaram e já querem a janela. E pior, pra estes “brancos médios” os fura filas ainda os acusam de machistas, racistas, LGBTfóbicos e demais obviedades de comportamento que eles realmente possuem. O que gera ofensa e reação destas populações pela confrontação com o que se é. Óbvio que são noções enraivecidas, deslocadas de qualquer contexto histórico, irracionalizadas. A morte da razão.

Se não fosse apenas um bom negócio, diria sobre como “Modernismo 10” seria uma exposição fundamental à manutenção de uma identidade nacional republicana democrática. Mas é um bom negócio e ponto. A racionalidade contemporânea é anacrônica quanto relacionada tão diretamente a um processo histórico falido no Século XX. Mas, talvez, o agente da arte por aqui (o branco elitista médio brasileiro) só deseje ser agraciado com uma narrativa que o exalte sempre e sempre e sempre. Quantas questões que o homem branco tem com o próprio falo… Não fosse um bom negócio, ou as Organizações Globo terem sido desprivilegiadas no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, diria que a exposição na Casa Roberto Marinho não merece sua visita. Nada que imagens em boa resolução de catálogos e internet não correspondam. Mas é um tempo de profunda debilidade na estrutura que temos para produzir verdades. Ataques à Academia, Jornalismo e Educação Formal tem minado as bases do debate. E a irracionalidade está em níveis superlativos. Sem a base lógica e racional não há diálogo, apenas guerra de dogmas. Sob este aspecto, da carência de exposições sobre o tema, ela insere sua relevância.

Porque a guerra da pós verdade está travada e só os profundamente engajados projetarão suas Identidades na História futura.

 

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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