Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Imagens em disputa: Dos cartazes do Atelier Populaire na França de 1968 à fábrica de memes no Brasil de 2018

Conhecido como “Maio de 68”, o explosivo movimento estudantil e operário que que ocorreu na França e marcou história, completou cinco décadas este ano. Submetida a releituras periódicas e objeto recorrente de disputas políticas, esse grande levante popular ficou marcado não só pela ocupação das ruas, mas também pelo uso de cartazes-protesto durante as manifestações.

A maior parte da vasta e criativa produção de cartazes do “Maio Francês” tem origem no Atelier Populaire (o “Atelier Popular”, isto é, a escola de Belas Artes de Paris). Os pôsteres, com sua estética simples e slogans diretos, se tornaram registros gráficos -documentos, da efervescência libertária deste momento histórico e da, praticamente,  inédita aproximação entre artistas, universitários e classe operária.

Parede do Ateliê Popular da Escola de Belas Artes de Paris, em 1968   - Atelier Populaire
Parede do Ateliê Popular da Escola de Belas Artes de Paris, em 1968

A Escola de Belas Artes de Paris foi ocupada pelos estudantes em 14 de maio de 1968. Durante dias, as assembleias gerais reorganizaram a escola que assumiu o nome de Atelier Populaire e que passou a colocar diariamente nas ruas uma enorme quantidade de cartazes impressos em serigrafia.

Os projetos eram realizados por equipes que se revezam dia e noite nos ateliês. Também foram formadas equipes de coladores, que se juntavam aos comitês de ação dos bairros e aos comitês de greve das fábricas. As responsabilidades eram rotativas, fazendo dos ateliês locais abertos e democráticos, dos quais participaram mais de 300 artistas e milhares de estudantes.

Assembleia geral do Ateliê Popular - Philippe Vermès
Assembleia geral do Ateliê Popular – Philippe Vermès

Fazendo o corte cronológico e espacial para o Brasil atual, ainda temos muita luta pela frente. Diante das eleições presidenciais deste ano, diversos segmentos sociais estão comprometidos com a luta antifascista. O candidato Jair Bolsonaro representa uma ameaça real aos preceitos do estado democrático de direito, mas seu plano de governo (?) fascista parece ser mais palatável para parte do eleitorado do que a manutenção do Partido dos Trabalhadores no poder.

As disputas ideológicas são esperadas e necessárias no contexto de uma democracia tão jovem (e tão frágil) como a brasileira. E, assim como nos anos 60 e 70, as ruas continuam sendo plataformas de protesto. Mas nada comparável ao alcance da internet. Os cartazes agora são os próprios memes. Aliás, os cartazes que chegam às ruas, em sua grande maioria, são inspirados (ou são cópias mesmo) das artes veiculadas online.

Um bom exemplo é a peça gráfica que diz: “Cuidado. O antipetismo pode te colocar ao lado de quem você menos espera”. Com certa inspiração no Atelier Populaire, o cartaz teria sido criado pelo designer-ativista Gladson (43 anos, natural do Paraná). A peça viralizou, demostrando que, atualmente, ter posicionamento político pode significar fazer um post. E quem não o fizer, será cobrado.

cuidado

Gladson também seria o responsável pelas peças em que Bolsonaro aparece dormindo na Câmara dos Deputados com um Post-it pregado na testa em que se lê: “Ele Não”, além da imagem em que o candidato tem um cartaz colado nas costas com a mesma frase.

elenao post

Os memes – que aqui chamo de “artes” e “peças gráficas” sem nenhuma ressalva conceitual, extrapolam questões de autoria e reprodução – que são, praticamente, inexistentes neste contexto do “protesto contemporâneo”. Mas, efetivamente, o que se faz on tem repercussões no que acontece off. Se por um lado as lutas parecem antigas, por outro, os modos de protestar são radicalmente novos. Imagens em disputa numa espécie de estetização da política. Ainda veremos os resultados.

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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