Carolina Lopes Crítica semanal

na lista VIP da festa da democracia, o fascismo

no ano em que o brasil recuperava sua democracia, eu nasci.

o estado ditatorial, ainda após o seu término, sempre assombrou o imaginário brasileiro. para aqueles que nasceram depois de 1985, é e sempre foi um passado presente: havia os que teimavam em dizer que aquele período tinha suas vantagens. pronto. eis que em 2018 abre-se uma fresta para o sentimento fascista. e temos no resultado das eleições presidenciais, um retrato do fantasma que não havia desaparecido.

para a parte dos eleitores que não votaram em prol do fascismo iminente, um choque. segunda-feira, e os músculos trêmulos e cansados. misto de susto, tensão, desespero e a procura de forças e estratégias para seguir. é angústia e a tentativa de enxergar onde falhamos. onde começa a faísca fascista? qual a dinâmica da manipulação de informações? como ela chega? como ela é absorvida? chego a um ponto cume: o projeto de decréscimo contínuo da educação deu certo. e não estou aqui falando da educação em números, notas, capacitação para passar em provas. mas uma educação que, de fato, forma pessoas incapazes de perguntar. sofri deste mal, só agora tento remediar o prejuízo. e quantos de nós o sofreram. diferentes escalas, diferentes níveis, mas a ignorância e ingenuidade se mantém. “a crise da educação no brasil não é uma crise; é um projeto.”, diz darcy ribeiro. o problema da educação faz também seu caminho pelo campo da cultura. vivemos agora o projeto de desmonte das instituições culturais. com ele, uma intenção clara: reduzir o acesso ao debate. incapacitando o sujeito brasileiro de questionar sua realidade. PERGUNTA.

como o primeiro dominó de uma sequência: fake news. o lastro se dá de modo quase suficientemente nas redes. não interessa verdade, mas imagem. voltamos aqui ao poder das imagens, dentro de uma construção simbólica e imediata, produzindo narrativas e verdades. é a leitura mais fácil e rápida. ela basta. não chegam junto com os posts, mensagens de whatsapp, stories, tweets esta mínima imagem subsequente: ?. boa parte da população que votou, contenta-se com uma agenda de governo que se baseia numa única frase: vamo mudar isso aí. volto a darcy ribeiro, quando diz “A escola não ensina, a igreja não catequiza, os partidos não politizam. O que opera é um monstruoso sistema de comunicação de massa, impondo padrões de consumo inatingíveis e desejos inalcançáveis, aprofundando mais a marginalidade dessas populações.”. estendo tal questão para o poder de formação de opinião, superficial e fajuto, do conteúdo que circula nas redes. INTERROGAÇÃO.

outro espanto, do modo mais positivo: a diferença gritante no resultado do primeiro turno das eleições, entre nordeste e o restante do país. um ponto é, o sudeste carrega ainda o status de centro colonizador. comportou aqui a corte portuguesa. preserva a maior parte da riqueza do país nesse pequeno recorte. de uma herança absolutamente elitista e popular, uma eleição que procura a manutenção do estado de ignorância e privilégio de direitos. do nordeste, a voz da resistência. grandemente comentado por leno veras, no fórum #maraberto desta semana no museu de arte do rio, diz: a situação precária já está posta, é preciso aprender a (re)existência. é preciso olhar para o povo negro, olhar para os indígenas, para as mulheres, para o nordeste. é preciso aprender a resistir. QUESTIONAMENTO.

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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