Crítica semanal Mayã Fernandes

O incômodo da democracia

O período era de 1935 – ou poderia facilmente ser 2018 – quando a publicidade de Goebbels incentivava a passividade e aceitação das medidas iminentes contra negros, judeus e lgbts. Hoje, incrédulos, observamos a violência sendo legitimada por meio de narrativas propagadas por grupos intolerantes da internet.

Por meio de mentiras, os estados fascistas garantiam que suas mensagens fossem disseminadas pelo povo. Transmitidas com sucesso através da arte, da música, teatro, filmes, livros, livros didáticos, rádio e imprensa. Criaram uma atmosfera de tolerância à violência e à falta de empatia. Intolerância em troca de lealdade política.

Tenho sorte de não ter vivido no período da segunda guerra mundial. Não passei pela ditadura de 1964, mas sinto os tempos sombrios em que chegamos. Entendo o que é ter medo de sair na rua e de ser atingida por boa parte das Fake News que insistem em se tornar verdadeiras no imaginário do povo. Agredida pelas falácias em volta da lei Rouanet, pelas mentiras em torno do kit gay, pelo heterossexualismo que insiste em negar minha família.

As notícias correm mais rápido do que todos nós, do que nossa tentativa de desvelar. Percorrem pelos canais de comunicação com destreza e facilidade. Acredito que enquanto escrevo este texto, mais uma falsa notícia fomenta o ódio nas pessoas. Contudo, não me engano, sei que não é nada pessoal. O ódio é de classe, é racial, é lgbtfobia e intolerância com o outro.

Acredito que enquanto artistas nossa existência de algum modo está em jogo. Não estamos mais falando de partido A ou B. Mas de assegurar nossa liberdade de existir em todos os espaços. É o compromisso com a verdade e com a vida das pessoas. É dizer não à publicidade ao serviço do fascismo. Da arte sendo distorcida e das perseguições e atos de violência que vem acontecendo e incrédulos, não esbanjamos uma reação.

Me pergunto como os governos genocidas crescem e se alastram sob nossos olhos. Questiono quais são os meios de fazer resistência. Utilizar o mesmo sistema de mentiras e Fake News? Fazer panfletaço na rodoviária e criar propaganda de uma melhor saída para os tempos difíceis? Escrever uma pequena crítica sobre como tudo está difícil e buscar novas formas de atuação?

Aprendi que em tempos como estes, existir é sinônimo de resistir. Minha tática é criar novas narrativas. Brincar com a noção de mito, bagunçar Fake News com uma nova tese, em buscar de uma antítese razoável que nos leve à uma síntese menos fascista. O diálogo é um começo e a dialética uma ferramenta imbatível. Com sorte, algumas pessoas ainda sintam o tavão de Sócrates e reconheçam a possibilidade da dúvida.

 

mayaMAYÃ FERNANDES é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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