Candé Crítica semanal

Arte e a Glamourização do Sofrimento

Tem um tempo que escrevi sobre Van Gogh e o mito do Gênio. Sobre como Van Gogh, hoje sabidamente esquizofrênico (por meio de diagnose póstuma… e todas as certezas que ela pode produzir), viveu as torturas de sua doença mental, não ganhou por isso e teve seu sofrimento romantizado como um elemento de valorização de sua obra. Doente, chegou a se cortar, ser devassado por uma recusa amorosa que, associada ao conjunto de miséria e solidão, provavelmente geraram sua morte prematura por suicídio. Passamos pelo Setembro Amarelo do combate ao suicídio e hoje em dia temos os rudimentos de uma sociedade que cada vez mais entende doenças mentais como uma questão de Saúde Pública. E neste processo de edificação de uma cultura mais racionalizada quanto às psicopatologias, começamos a ver onde a Arte é fundamental na criação do Glamour da Arte Torturada.

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A Figura do Gênio era entendida como um humano com poder adicional com custo de uma personalidade excêntrica e perturbada. O preço de criar seria sofrer e quem cria absurdamente possuiria uma “alma” torturada por uma mente brilhante. O Artista Torturado é aquele com incrível capacidade produtiva, percepção ampliada e uma mente com processos cognitivos extra-humanos. Quase um X-Men Gótico! Quase um tocado pelos deuses! Estava lendo um artigo da Kay Redfield Jamison sobre o compositor alemão Robert Schumann. Schumann tinha uma produção como compositor acumulada em picos hiper-produtivos intercalados com terríveis estágios de depressão improdutiva  que culminaram em seu suicídio aos 46 anos. Durante estes picos, não dormia ou comia adequadamente sobrando apenas sua mania produtiva incontrolável. Ele era provavelmente bipolar e seus estágios de mania conferiam uma percepção ampliada assim como capacidade de foco. Diferentes estágios alterados de percepção são identificados em diversas doenças mentais. Muito da Arte sim foi produzida sob estes estágios alterados de percepção. E muitos deles foram usados para legitimar uma identidade sobre-humana do agente criativo que produzia as formas capazes de influencias pequenos grupos de diletantes ou grandes massas em áreas públicas.

A Arte se legitima em sua pretensa sobrenaturalidade. Para isso pessoas precisam ser acreditadas como algo mais que humanos – ou, pelo menos, uma versão humana melhorada. Seria puro marketing não fosse a real convicção nesse modelo superman que muitos agentes da arte perpetuam até hoje. E falando em presente, talvez nunca tenhamos adorado tanto a dor romantizada quanto agora. Música, Literatura, Artes Visuais… adoramos o impacto emocional falso que a “Arte Torturada” pode proporcionar como um filme hollywoodiano ritmado pelas sensações. Elas vendem, geram a falsa sensação de sentido e profundidade numa cultura ocidental baseada na visualidade. Vive-se uma sede de vivências com sentido, substância. A exposição da dor exibe o que culturalmente se esconde gerando a sensação de intimidade, identificação, verdade. Um vazio existencial Ocidental da superficialidade contemporânea em relações difusas e substituíveis que tenta ser remediado com a seleção certa de livros, instalações, imagens ou algumas músicas no Spotify.

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Muito desta mística está no desconhecimento geral sobre as doenças mentais, efeitos e causas. O Desconhecido gera medo e medo cria barreiras cognitivas. Contato com medo gera facilmente a mistificação. Como encararia um tio que não dorme por dias jogando on line ou uma irmã que escreve sem parar varando noites? Vão entender um pouco do que era conviver com Virginia Wolf. Imagina romantizar o câncer? Fica difícil? Mas o mundo ainda consumirá muita Tortura Romantizada advinda de Artistas Doentes. Uma evidência que pessoas com psicopatologias podem ser profissionais excelentes? Claro. Que elas são a gripe do Século XXI? Também. Mas que cada vez mais viabilizamos pelo consumo nosso desejo mais secreto por uma vida com sentido, motivação e propósito.

Uma vida que valha $$$ a pena.

 

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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