Camila Vieira Crítica semanal

A resistência é a nossa Arte

Já dizia, a sabedoria popular, que o Brasil não é para amadores. As eleições deste ano endossam a frase. Estamos, os progressistas, vivendo, desde as massivas manifestações de 2013, numa montanha russa emocional, cujas curvas e voltas estão se intensificando nesta reta final das eleições. Após o insólito primeiro turno, no qual pesquisas de intenção de voto erraram redondamente as previsões, assistimos, atônitos, à consagração de candidatos que, até então desconhecidos, ou foram eleitos ou passaram a disputar o segundo turno, a exemplo do caso da disputa para o governo do Rio de Janeiro entre Wilson Witzel e Eduardo Paes. Outro resultado que nos deixou boquiabertos foi o senado de Minas e de São Paulo, cujos candidatos petistas, Dilma Rousseff e Eduardo Suplicy, respectivamente, estavam apontados como favoritos desde o início das pesquisas, mas perderam os cargos para conservadores favoráveis à Bolsonaro, que teve o seu próprio filho eleito para o senado.

Até este dia 18 de outubro de 2018, uma quinta-feira, ninguém havia entendido o como a votação se consolidou tão fora da curva, como a que se provou após a apuração das urnas, principalmente quando anteciparam-se, ao primeiro turno, as manifestações massivas de mulheres contra este que é o candidato mais insólito que já apareceu no cenário brasileiro. Não se entendia, até então, como uma candidato declaradamente machista, racista, homofóbico e odiento, a ponto de “soar”, segundo David Duke[1], como um membro legítimo do famigerado grupo de supremacistas brancos, Ku Klux Klan, pôde conquistar tantos afetos a ponto de eleger deputados, senadores, governadores e quase chegar à presidência, já no primeiro turno. Teria sido uma repulsa às feministas do #Elenão? Teria essa quase vitória tido a ver com o apoio de igrejas neopentecostais ao candidato que “advoga pela família e pelos bons costumes”, muito embora não seja de bom tom ter ameaçado a ex-mulher de morte[2], nem seja uma prática cristã apoiar abertamente o fuzilamento de opositores e a tortura de desafetos[3]?

A magistral reportagem de Patrícia Campos Mello[4] mostrou que o buraco era bem mais embaixo. Na realidade, A campanha de Bolsonaro teria montado um esquema de apoio de empresários, vetado pela lei eleitoral, por meio de compra ilegal de pacotes de disparo de mensagens falsas, que atacavam o PT, via whatsapp. A reportagem infere que cada contrato pode ter chego ao montante de até 12 milhões de reais, não apontados como aporte eleitoral, configurando crime de Caixa 2. O estrago só não será maior se o TSE impugnar a chapa e convocar novas eleições, o que aparentemente não está sendo feito. O estrago, porém, já é grande, visto a quantidade de candidatos do PSL, partido de Bolsonaro, eleitos e a mácula que Haddad carrega devido às notícias falsas que circularam a respeito de sua candidatura e partido.

Talvez, nos próximos artigos, eu consiga tratar mais especificamente da estética adotada por essa campanha e pelo movimento da direita golpista, que chegou quase a sequestrar para si as cores da bandeira, visto a larga utilização verde-e-amarelo nas manifestações pró impeachment e na recente campanha autoritária de Jair Bolsonaro. O importante agora é unirmos as forças para pensar criticamente e criativamente este momento decisivo da política nacional e, através da nossas cores, que são muitas, resgatar o povo brasileiro desta letargia causada pelo discurso de ódio e pelo fascismo, que tomou de assalto essa alegria que era tão característica nossa, por conta da diversidade que querem anular. A resistência é a nossa Arte. Nosso campo de batalha tem que ser a Cultura.

[1] SENRA, Ricardo. ‘Ele soa como nós’: David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan, elogia Bolsonaro, mas critica proximidade com Israel. Disponível em:https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45874344. Acesso em: 19 de out. 2018.

[2] DIAS, Marina; VALENTE, Rubens. Ex-mulher afirmou ter sofrido ameaça de morte de Bolsonaro, diz Itamaraty. Disponível em:https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/09/ex-mulher-afirmou-ter-sofrido-ameaca-de-morte-de-bolsonaro-diz-itamaraty.shtml. Acesso em: 19 de out. 2018.

[3] RIBEIRO, Janaina. “Vamos fuzilar a petralhada”, diz Bolsonaro em campanha no Acre. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/vamos-fuzilar-a-petralhada-diz-bolsonaro-em-campanha-no-acre/.Acesso em: 19 de out. 2018.

[4] MELLO, Patrícia Campos.Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp.Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml. Acesso em: 19 de out. 2018.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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