Carolina Lopes Crítica semanal

nunca será pessoal demais

nunca será pessoal demais.

fórum maraberto, museu de arte do rio. nesta edição, a conversa se dá em torno do assunto ‘gênero’. entre as convidadas presentes, a escritora, roteirista, colunista da folha de são paulo e curadora do blog agora é que são elas, antonia pellegrino e a terapeuta ocupacional, artista e mediadora de museus, gabe passareli.

antonia, que participa de articulações de movimentos e campanhas nas redes sociais, como #MexeuComUmaMexeuComTodas, e participou de articulações em torno da campanha #elenão, inicia sua fala com uma proposta de recuo das palavras de ordem, incluindo a imensa campanha. antonia comenta a intenção de um recuo, para que se promovam novas estratégias para os feminismos possíveis. ela fala de como manter-se aberto e como poder então, afetar o outro.

gabe, deixou claro a prioridade do encontro. optou por não programar um discurso inicial, para afetar-se, sensível às questões e demandas do momento. iniciou sua fala dizendo da necessidade deste afeto: entre tantas discussões, desesperos, elenãos, falta tempo para o auto afeto e o afetar-se pelo outro. propôs que toda fala fosse a fala de si: a experiência pessoal, quando partilhada, nunca será pessoal demais.

numa convergência arrepiante, todxs ali tiveram suas falas e participacões costuradas pelo afeto. antonia e gabe, ainda que abordando diferentes esferas políticas, em diferentes frentes, concordaram em um ponto chave: no momento político extremamente delicado em que estamos, qualquer possibilidade de virada há que se dar no encontro.

não serão whatsapps, facebooks, instagrams. não será na distância que abraçaremos os porquês do outro, que produziremos o ambiente propício para a conversa. formou-se um desenho a cada ponta para onde o debate esticava que, tornou-se cada vez mais transparente e nítido o inimigo contra o qual todxs estamos lutando, juntos – o desafeto. de uma destreza trabalhada na capacidade de empatia, gabe produzia em suas falas, tanto momentos de extrema emoção, quanto momentos de extremo desconforto. esclarecendo sempre que, os desconfortos, criar problemas difíceis de opinar, são também importantes. saber e entregar-se a pensar as complexidades presentes e necessárias às relações.  

em certo momento, evandro salles, diretor do museu de arte do rio, faz uma colocação. gabe o interrompe: – posso fazer uma pergunta?

evandro responde: – não, eu que vou te fazer uma pergunta. (ele concluia sua fala, pensando em finalizar com uma pergunta às convidadas).

quando termina, gabe pergunta ao evandro, como ele, em seu corpo, combate o machismo. evandro responde algo que gira em torno do perceber, do enxergar e então assim, combater. gabe insiste, perguntando do machismo que é invisível, aquele que se dá em outras camadas do que ele, evandro, é. gabe joga luz ao fato de evandro ser ali uma figura rara àquela discussão, àquele espaço que se formou ali: homem, branco, cis, que falou antes dela, formando uma boa referência para tocar no assunto, ainda que de forma desconfortável – desconfortos são também necessários.

senti ali que estava aprendendendo a viver. e que, viver de forma democrática passa intimamente por relacionar-se estreitamente, pessoalmente, com o outro.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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