Crítica semanal Daniele Machado

Fazei isto em memória de mim

Então Pilatos soltou-lhes Barrabás, mandou açoitar Jesus e o entregou para ser crucificado. Então, os soldados do governador levaram Jesus ao Pretório e reuniram toda a tropa ao seu redor. Tiraram-lhe as vestes e puseram nele um manto vermelho; fizeram uma coroa de espinhos e a colocaram em sua cabeça. Puseram uma vara em sua mão direita e, ajoelhando-se diante dele, zombavam: “Salve, rei dos judeus!”. Cuspiram nele e, tirando-lhe a vara, batiam-lhe com ela na cabeça. Depois de terem zombado dele, tiraram-lhe o manto e vestiram-lhe suas próprias roupas. Então o levaram para crucificá-lo (Mateus 27: 26 – 31)

Este é, provavelmente, o texto de descrição de tortura mais conhecido do mundo. Jesus Cristo, o Deus das duas maiores religiões do país, foi brutalmente torturado antes de morrer. O mesmo Deus que, diante de livros inteiros na bíblia que trataram de um Deus vingativo, assassino, veio pregar o amor. O amor! Contra quem lhe agredisse uma face, disse que se ofereça a outra. O amor.

Eu fui criada dentro da igreja evangélica. Conheço bem o funcionamento das igrejas e a bíblia. Este, é um livro de muitos livros que reúnem estórias orais que foram registradas muito tempo depois. E, hoje, chegam às nossas mãos após muitas traduções. Compreender isso tudo é fundamental para fazer uma interpretação mais acertada do que esses textos podem passar, mas, ainda assim, há mensagens explícitas a que não se pode negar que ali estão. Duas delas descrevi acima. Jesus, torturado e assassinado, pregava o amor e não o ódio e a violência.

O que se procura em uma igreja? Aprovação e afeto, além, é claro, da prometida salvação que livra do inferno. As igrejas estão onde o Estado não está. Onde mal tem educação, quem dirá cultura e lazer. É onde se constrói sociabilidade, se faz amigos, se flerta e se sonha com as promessas de um futuro melhor. É onde você é aceito, reconhecido em um grupo, quando toda a sociedade lhe nega essa possibilidade.

Aprovação, afeto e vida eterna. Praticar o amor ao invés do ódio e a paz ao invés da violência não está no que se busca. O que vemos é a maioria defendendo o ódio, a tortura e a violência. Felizmente, existem cristãos que realmente praticam e defendem o que Jesus pregava. Nessas eleições, cristãos só podem ter um lado. O lado que defende a vida, o amor e a educação. Porque

Conhecerei a verdade e a verdade vos libertará (João 8:32)

O mesmo cristão que hoje defende a violência teria torturado e assassinado Jesus. Quando Jesus constitui a ceia como um gesto de memória a se fazer dele, era sobre comunhão. Sentar a mesa e compartilhar o alimento e o afeto. Essa é a memória que Jesus pediu que fosse feita dele.

 

dani

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s