Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Fundo do posso: velha política e novas tecnologias

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) organizou uma coletiva de imprensa no último domingo, 21, para explicar medidas de combate às fake news nas eleições 2018. Diante da denúncia de um esquema de Caixa 2 na campanha do candidato Bolsonaro para financiar o disparo de mensagens anti-PT via Whatsapp, as autoridades trataram o tema como algo muito novo e ainda fora da capacidade de atuação (efetiva) do TSE.

Mas talvez, o desafio não seja apenas tecnológico, mas seja, sobretudo, cultural. Como a tecnologia (que conecta todo o mundo) conseguiu agravar o distanciamento, a desconfiança, a desinformação e minar de vez a comunicação entre pessoas? Para além do fascínio (já datado) com as possibilidades do digital de descentralização midiática, liberdade de expressão e segurança da informação, já passou da hora de percebermos as redes sociais e os aplicativos como ferramentas de projetos políticos que os atravessam e os ultrapassam.

Para alinhar democracia e tecnologia em um contexto semianalfabeto, conservador e ultra religioso como o brasileiro, precisamos começar a ajudar/capacitar as pessoas a desenvolverem um pensamento crítico sobre os diversos conteúdos disseminados via celular. Não é porque nossa fé nas instituições e na política morreu, que podemos acreditar em qualquer um ou qualquer coisa que brota nos grupos de Whatsapp.

Do ponto de vista comunicacional, acredito que a ascensão de Bolsonaro pode ser explicada pelos mesmos motivos que levaram ao surgimento dos movimentos anti-vacina, o terraplanismo, o medo da volta do comunismo (?) e outras doideiras que nos empurram para o fundo do posso (sic).

Por isso, a aproximação entre anti-petismo e anti-intelectualismo me parece pertinente. De acordo com a Wikipedia (para não cair em contradições estilístico-conceituais), anti-intelectualismo é “a hostilidade e a desconfiança em relação ao intelecto, os intelectuais e o intelectualismo, comumente expresso como depreciação da educação e da filosofia e desdém pela arte, literatura e ciência”. Foi isso que aconteceu no nazismo alemão, quando os judeus foram tachados de “urbanos, intelectuais, possuidores de um espírito crítico destrutivo e corruptor”. O mesmo se deu no governo fascista de Franco e em alguns outros regimes totalitários que se empenharam em combater qualquer aprofundamento intelectual – ou melhor, qualquer tentativa de esclarecimento, debate e oposição.

Do “falar difícil” ao “mimimi”, da arte degenerada do século XX à “indecência” dos artistas contemporâneos, do populismo ao “tem que mudar isso aí”, o que está na base do “conservadorismo de massa” é a desinformação generalizada, que produz medo e, por consequência, ódio. O maior exemplo da atualidade é Trump. E Bolsonaro vem na carona.

A ideia de criticar o pensamento, em si, não passa apenas por aspectos do raciocínio, mas é sobretudo, emocional. Abandonamos os estudos, as análises, os debates, a construção de propostas e a escuta das demandas do outro para dar espaço a palavras de ordem, gestos violentos, notícias falsas e comentários raivosos em caixa alta e sem nexo.

Mas não se engane: o interesse em negar o pensamento crítico e desvalorizar a arte não é uma característica da era da pós-verdade. Nada disso é novo. Desde que a humanidade percebeu que “conhecimento é poder” tem muita gente empenhada na manutenção da burrice. E não me refiro à burrice como falta de educação formal/acadêmica, mas (repito) à desinformação, à confusão, à manipulação através da simplificação de conceitos e à disseminação de ódios gratuitos.

A característica mais pulsante da era da pós-verdade é (na verdade) a desconfiança. Antes de comprar um celular, por exemplo, preferimos zapear dezenas de comentários de outros compradores do que ler a resenha de um especialista. Claro, é maravilhoso que estejamos mais questionadores e conscientes dos truques corporativos, da inclinação tendenciosa dos veículos de comunicação e da corrupção disseminada na política. O problema é quando a desconfiança generalizada e a descrença nas instituições são utilizadas (de má fé) para questionar o pensamento em si, além dos especialistas e estudiosos, do conhecimento produzido pelas instituições sérias e o próprio sistema de checagem. Somos bombardeados de maneira tão incisiva com, simultaneamente, “a verdade e a mentira” que não sabemos mais o que é real. O fato é que tudo virou “questão de opinião”.

Nunca tivemos tanto acesso a tanta informação. Mas nunca fomos tão resistentes a pensar, a aprender, a escutar e a dialogar. Os interessados no anti-intelectualismo têm uma estratégia muito eficiente, porém igualmente perigosa: que é transformar o significado de mudança em sinônimo de melhora. Mas atenção: a mudança que anunciam não é para melhor. Porque, “tem que mudar isso aí” não significa a mesma coisa que “vamos melhorar isso e aquilo”. Já dizia o poeta: dá sempre para piorar.

Bem na nossa tela, o TSE está se isentando com a falácia do ineditismo do uso de uma tecnologia na campanha eleitoral. As ferramentas podem até parecer novas, mas a estratégias de (falta de) comunicação e difamação são antigas.  E como todo intelectualóide de merda, concluo com uma citação descontextualizada: “a luta fundamental pelo poder é a batalha pela construção de significado na mente das pessoas”.

 

ludmillaLUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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