Camila Vieira Crítica semanal

S.O.S Democracia: um drama em alto-mar

O declínio do estado Democrático de Direito vem se desenhando desde o Impeachment, mas nunca teve contornos tão claros como nestes últimos dias que antecedem o segundo turno das eleições presidenciais. Denúncias graves de manipulação eleitoral, através de notícias falsas, difundidas por meio de pacotes de dados, pagos por empresários favoráveis a Bolsonaro,- por meio de caixa dois-, além das mortes, estupros e agressões causados por fascistas recém saídos do armário, cada vez mais empoderados pelo discurso de ódio do capitão reformado, são apenas a ponta deste iceberg que pode o afundar o navio antes deste chegar ao seu destino, à semelhança de um Titanic. Aliás, o Titanic é a analogia perfeita para o Brasil que vivemos: totalmente segregado. A população rica do navio, dividida entre os ricos de verdade, os burgueses sem dinheiro e os aproveitadores, acham que são intocáveis e, desprezando a ralé, se divertem com seus jogos de azar e a alienação típica de quem nunca passou fome. Do outro lado, a população pobre, que tenta fazer festa com o pouco que têm, acreditando que, apesar do aperto financeiro e das condições precárias das minúsculas cabines do navio, estão destinados a um lugar melhor, com mais oportunidades.

É como se os anos de Lula fossem o bilhete premiado que Jack ganhou numa aposta. De origem humilde, ele usou o seu mérito para garantir seu lugar no navio, conheceu uma realidade diferente da sua e chegou a engatar um romance com uma burguesa. Talentoso que era, conheceu a classe abastada, comeu e bebeu na mesa da elite, se vestiu e se portou como um homem de bem; apesar disso, foi preso injustamente e morreu afogado como qualquer outra pessoa de sua classe social, chegando até mesmo a ceder o seu salvo conduto à Rose. Na tábua de salvação, aliás, cabiam os dois. Sem contar a cena dos violinistas, estes são os juízes do TSE, ainda apostando numa “normalidade democrática” que, para quem dorme nos piores lugares do navio, já acabou faz tempo. A parte mais baixa é sempre a primeira a afundar. Ainda tem aquela parte da classe média, que se recusa, mesmo em situação de sobrevivência,  a partilhar o bote salva-vidas com os demais. Depois dos pobres, eles foram os próximos. Só não espero que o capitão do navio tente guiá-lo até o final, numa demonstração de coragem e grandeza, pois, neste caso, o capitão brasileiro não tem nem uma, nem outra. Dá pra fazer uma história formidável sobre as muitas semelhanças que se podem traçar sobre o declínio brasileiro e o filme dirigido por James Cameron, inclusive porque, antes de afundar definitivamente, o navio se partiu em dois.

No Titanic, foi a nebulosidade no horizonte que fez com que o Iceberg não fosse notado. Analogamente, não percebemos, após 2013, o que estaria por vir. O aguaceiro foi mais rápido do que a contenção da água. A única coisa que não bate entre a realidade do filme e a realidade brasileira é que eu não lembro de a tripulação do Titanic tentar sabotar o navio, para que ele afundasse mais rápido, ao contrário de alguns brasileiros, cuja culpa não foi deles, “porque votaram no Aécio”, e agora, apesar dos avisos internacionais, decidem que vale a pena abrir um pouco mais esse buraco, pra mudar “tudo isso aí”. O Brasil está cada vez mais inclinado para a extrema direita, e, a exemplo do clímax do filme, quando o navio começa a inclinar demais, são muitos os que escorregam da proa diretamente para fora do barco, sem qualquer chance de um bote salva-vidas. Sobre a inclinação fascio-tupiniquim, para se ter uma ideia, foram relatadas, só nesta semana, mais de 140 invasões, por meio de ordem judicial, à faculdades e instituições públicas que supostamente estariam fazendo propaganda política, quando, na realidade, tratava-se de um tentativa de defesa à democracia.

Por meio de debates, cartazes e bandeiras com dizeres anti fascistas, faixas foram hasteadas no frontão das universidades, em repúdio às posições autoritárias, anti científicas, odientas e preconceituosas que se vêm promovendo nos grupos da família tradicional brasileira e das igrejas neopentecostais. Contudo, a posição era contra o fascismo, jamais se citou qualquer referência a um ou outro candidato específico. Agora, se algum juiz lê uma bandeira pró-democracia, como sendo uma posição de defesa de um candidato em detrimento de outro, está se chancelando que um candidato é democrático, outro não.  O que surpreende é que juízes estejam usando justificativas torpes para não cumprir a lei e perseguir, por meio de censura, àqueles que pensam diferente do conservadorismo tacanho que, há tempos, assola o país.

Embarcamos numa jornada, em 2013, para perdemo-nos no meio do caminho, que ficou nebuloso. O casco do S.O.S. Democracia  foi perfurado pelo Iceberg do jogo político. O país está quebrado, dividido e afundando cada vez mais rápido. Neste tipo de situação, numa previsão futura, alguns poucos sobreviventes conseguirão atravessar o mar gélido do fascismo e aportar numa nova Terra prometida, porque muitas serão as perdas. Ou trocamos de canal agora, ao invés de continuarmos seguindo um roteiro tão dramático, ou será tarde demais para caminharmos de volta para o futuro.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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