Carolina Lopes Crítica semanal

imagine

imagine.

imagine o dia 1 de janeiro de 2019. um presidente, que também é professor, doutor em filosofia, toma posse em brasília. imagine a festa, a explosão de alegria e esperança. imagine, alguns anos depois um sistema de educação que funcione e inclua. jovens e crianças estudando sobre as raízes étnicas deste país, sobre gêneros e sexualidades, entendendo o racismo e machismo estruturais, discutindo e pensando política, aprendendo modos de viver em que o respeito ao outro seja a base. imagine todas, todes, todxs, tendo acesso à condições de alimentação, moradia, saúde, segurança, mobilidade, empregos, educação, mais igualitárias. imagine a roda desses movimentos começando a girar e ganhando uma força sustentável, que só cresça. imagine.

arte democracia utopia – quem não luta tá morto, exposição curada por moacir dos anjos, no museu de arte do rio, conversa com o público sobre política, sem inícios e sem fins. propõe pensar democracia brasileira, olhando pelo máximo de vértices possíveis. bandeiras de movimentos políticos, os mais diversos, enviesam todo o espaço expositivo. parecem querer lembrar de que, toda discussão e filosofia políticas pretendem sua versão prática. somam às almofadas pedagógicas, quando apontam para as numerosas frentes políticas, atuais e históricas. evocam um senso de coletividade. um desejo de multidão, de muitas vozes. inúmeras que, juntas, clamem. em anna maria maiolino, por um fio e no bordado de rosana palazyan, MÃEFILHO, uma costura que atravessa o feminino, o lugar da mulher. nas bandeiras da frente 3 de fevereiro que gritam, com gritos de torcida: “cadê os negros”, “zumbi somos nós”, somam voz à bandeira negra, de emmanuel nassar, dizendo forte e muito da origem negra que construiu este país e que não quer calar.

proposições variadas envolvem o corpo para os pensamentos e discussões: é nele que se dá a disputa. rodas de cadeiras escolares; banco circular com as almofadas pedagógicas; uma cadeira de frente a outra, propondo escuta mútua; um grande quadro com bordados com palavras de ordem, para pendurar nas roupas. uma bandeira/tela, imensa, em vermelho, diz: “amanhã manifestação”, de gustavo speridião. um clamor infinito. enerva, comove. entre salas, as batidas de tambor, de quem não luta tá morto – grito de guerra do mstc, de virgínia de medeiros. são, de fato, o soar da força coletiva transpassando o corpo. transpassando as salas. transpassando a exposição.  

bandeiras. coloridas, fofas, permeadas de uma ingenuidade necessária para sonhar: “guerreirxs guarani kaiowá vencem luta por sua terra ancestral – 2034”, “exército queer incendeiam igrejas e inauguram o estado laico no brasil – 2028”, “toma posse primeira presidenta negra do brasil – 2027”, entre outras. profecias, de randolpho lamonier. é o desejo utópico que nos abre a possibilidade de outros lugares que não os nossos. tive a nítida impressão de que, o desejo democrático no brasil é, também e ainda, um desejo de descolonização. olhar então a foto de claudia andujar, três crianças indígenas se abraçando é olhar pra gente. na carta cruzeiro do sul, de cildo meireles, tudo isto está bem posto, diz: porque o povo cuja História são lendas e fábulas é um povo feliz.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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