Crítica semanal Daniele Machado

Eu estava apenas cumprindo ordens

O que mais me preocupa no atual contexto político do Brasil não é quem se afirma como fascista. É quem recebe ordens anti-éticas, que ferem gravemente a dignidade mínima do outro e, ainda assim, as executa. E que, por fim, se exime da responsabilidade da ação pois “estava apenas cumprindo ordens”. É possível dividir esses em dois grupos: os superiores, que organizam como será a execução das ordens e os inferiores que executam de fato as ordens. Esse texto é sobre os primeiros. Que não são nem que dá as ordens, nem quem as executa de forma prática, mas que estão no meio.

Os que planejam a execução das ordens fazem a mediação entre o alto escalão e quem sofrerá as consequências das ordens. Se afirmam neutros, às vezes afirmam até sensibilidade e solidariedade. Mas, como não eles que dão as ordens, não podem fazer nada além da mediação, pois também são ameaçados pelo alto escalão e sua função é apenas fazer com que as metas sejam cumpridas. O mal é banalizado e infigurável, afinal, aquele que dá as ordens é inalcançável. E, como dentro dessa hierarquia o acesso é possível apenas a aqueles que fazem a mediação, que não tem responsabilidade por dar as ordens e que também estão coagidos, não há com quem gritar. Ninguém irá ouvir.

Os que fazem a mediação se afirmam como neutros. Compreendem ambos os lados. E, apesar da solidariedade ao lado do oprimido, nada pode fazer por eles. Os mediadores são os olhos e os ouvidos do alto escalão. Não hesitarão em comunicar qualquer mínimo movimento que possa por em risco todo o sistema. E, apesar de pertencer à mesma classe oprimida, se acreditam diferentes, pois foram escolhidos para passar para o outro lado. Receberam o voto de confiança do alto escalão e não irão decepcionar. Serão leais. São absolutamente neutros e exímios executores de ordens. Não pensam, nem criticam.

Se para o alto escalão não há ética. E se para os oprimidos a ética os defende. Qual o lugar da ética para os mediadores? Se eles são tão ameaçados quanto aqueles que sofrem com as ordens? Há um limite ético para a posição dos mediadores?

Hannah Arendt (1906 – 1975) foi uma filósofa judia que ficou conhecida por, após o holocausto judeu, fazer o inesperado: explorar a fundo não o alto escalão nazista, nem os judeus escravizados, mas os mediadores. Em especial um: Adolf Eichmann, um dos principais organizadores do extermínio dos judeus. Eichmann foi julgado e condenado a morte por enforcamento. Se defendeu afirmando o seu lugar mediano na hierarquia. Não deu as ordens, era neutro, não concordava com o assassinato dos judeus, mas não havia qualquer possibilidade de escolha. Os juízes o absolveram da responsabilidade pessoal pelo extermínio, mas foi condenado por outros crimes.

Hannah Arendt realizou a cobertura do julgamento para o jornal New Yorker, o que a levou a refletir sobre o que dizia ser o mal maior do mundo, aquele que é praticado por ninguém, por pessoas que não tinham quaisquer motivos ou convicções para praticá-los. Fenômeno a que chamou de Banalidade do Mal: pessoas que se recusavam a serem humanos. Os textos da filósofa levantaram polêmica. Se esperava que ela, enquanto judia, atendesse prontamente o apelo da condenação pública de Eichmann como assassino de judeus. Ela também questionou o lugar dos líderes judeus durante a segunda guerra mundial. Menos judeus teriam sido executados caso não houvesse a colaboração direta de líderes judeus nas ações de Eichmann, sendo acusada de afirmar que o povo judeu era o próprio culpado pelo seu extermínio. A filósofa se defendeu afirmando que nunca acusou o povo judeu, que de fato a resistência era impossível. Mas, que deveria haver algo a ser feito entre resistência e colaboração. Posteriormente, em 1988, Simon Wiesenthal (1908 – 2005), famoso caçador de nazistas, publicou o livro Justiça, não vingança em que afirmou

O mundo compreende agora o conceito de «crime de secretária». Sabemos que não é preciso ser fanático, sádico ou doente mental para assassinar milhões; basta ser um seguidor leal ansioso por fazer o seu trabalho

Por fim, não sabemos o que está por vir no Brasil pelos próximos quatro anos ou mais. Mas, já vimos crimes terríveis contra a humanidade. Eles nos assombram pois, apesar de não sabermos o que virá, as características iniciais de ciclos fascistas são muito semelhantes. Sigo com o medo maior dos mediadores que dos fascistas assumidos. O fascismo não é movido pelos fascistas. O fascismo é movido pelos mediadores. É movido pela neutralidade. Há ordens que não podem ser cumpridas por seres humanos, apenas por pessoas sem capacidade de pensar. O mal não pode ser banalizado.

Não se engane, sua neutralidade é forjada. Voltar atrás não é possível. Mas, é possível fazer diferente daqui em diante. Pense!

Encerro este texto com uma citação de Hannah Arendt, em seu livro A vida do espírito (1978).

O que me deixou aturdida foi que a conspícua superficialidade do agente tornava impossível retraçar o mal incontestável de seus atos, em suas raízes ou motivos, em quaisquer níveis mais profundos (…) Nele (Eichmann) não se encontrava sinais de firmes convicções ideológicas ou de motivações especificamente más, e a única característica notória que se poderia perceber tanto em seu comportamento anterior quanto durante o próprio julgamento e o sumário de culpa que o antecedeu era algo inteiramente negativo: não era estupidez, mas irreflexão.

 

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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