Camila Vieira Crítica semanal

Somos uma geração de histéricos

No artigo de hoje vou trazer algumas reflexões sobre a nossa vivência nas redes. Este debate tem alguma relação com a situação política brasileira, porém muito mais a ver com a psicologia que envolve as “tribos virtuais”, nas quais nos inserimos voluntariamente para “agir” a respeito de determinada situação. Para ser mais clara, vou citar duas situações que ocorreram ao longo do processo que vem se desenhando desde 2013 até os dias de hoje. A primeira situação diz respeito a esse envolvimento do brasileiro com a política, quando o ano de 2013 nos revelou que as manifestações de rua tem tanta potência quanto torcer pela seleção brasileira na Copa do Mundo. O ineditismo das redes sociais fizeram explodir um sem número de pessoas que precisavam falar e serem ouvidas, despejando toda a sua verve num desejo de mudança que, por sua vez, foi se diluindo entre as pautas de esquerda e de direita. A política dá raiva, e essa manipulação da raiva, principalmente por parte da direita, conseguiu alavancar pautas morais e embates antes latentes no cenário brasileiro, mas que foram impulsionados por uma onda conservadora que soube se utilizar das redes para colocar em evidência as suas questões, apesar da forte resistência, promovida pela esquerda. A segunda situação trata de uma frase que li no twitter, quando um perfil, certa feita, tuitou que “a política nos havia roubado a libido”.

O que me despertou a discorrer sobre este tema, foi um vídeo que assisti no youtube, cujo mote era fazer pensar sobre o por quê de estarmos vivendo tempos tão medicados, tempos estes nos quais há uma explosão de doenças psicológicas e transtornos de toda a sorte. Diz Paulo Ghiraldelli[1], filósofo e proprietário do canal, homônimo, que grande parte destas crises tem a ver com o fato de sermos acessados a todo o momento, de não sairmos mais de “férias”, porque já não é possível nos desligarmos do mundo. Nossas experiências não são pautadas na aprendizagem adquirida com as gerações anteriores, mas na experimentação compulsiva, que faz com que o sujeito chegue  aos limites de sua própria autodestruição. Saímos já de uma fase niilista, pois a desilusão deu lugar a um princípio de autorrealização, algo sintomático de um era individualista nos quais os sujeitos são conectados a uma rede virtual. A nossa libido, por causa deste vício em absorvermos cada vez mais informações e estarmos paulatinamente nos adaptando e assimilando o mundo virtual, enquanto mundo real, nos impulsiona a um processo de realização pelo consumo; não necessariamente de roupas e acessórios, mas de notícias, opiniões e de sensação de pertencimento social.

Se não me fiz clara, basta imaginar a transição de nós mesmos antes e depois do advento da internet. Já não é premente manter relações pessoais com familiares e amigos, visto que podemos encontrar um grupo virtual que possua os mesmos valores e crenças que os nossos. Este ano de 2018 foi definitivo ao rompimento de laços que já vinham se desgastando desde 2015, quando as minorias todas saíram do armário, encontrando forte reação das camadas conservadoras da sociedade; reação esta, que já pode ser lida como uma disputa de classes, visto a cisão de gênero, classe e cor a respeito dos votos destinados aos então candidatos à presidência Fernando Haddad e Jair Bolsonaro: O primeiro, venceu entre os mais pobres e menos escolarizados, com sua pauta social e de melhoria econômica,  enquanto o outro, ganhou a elite devido à sua fala de um “retorno ao paraíso” e da moralização da sociedade. Estas divisões causadas entre membros da mesma família e amigos, não mais pelos times de futebol, mas por posicionamentos morais e políticos, dizem muito a respeito do nosso autoconhecimento e do conhecimento do outro, por meio dos nossos valores, que funcionam como mediadores para as nossas relações – fomentadas pelas redes sociais.

Nós nos abrimos à intensidade do “mostrar-se nas redes”. Não se trata mais de sopesar a vida pessoal e vida virtual porque estes limites estão cada vez mais tênues. Além disso, essa abertura abrupta da nossa vida “real” ao mundo  “virtual”, funcionou como uma droga que retroalimenta nosso ego e nossa vontade autodestrutiva de procurar cada vez mais intensidade no nosso cotidiano, para preencher nossas lacunas de tempo ocioso, porque desaprendemos a lidar com o tédio. A nossa vontade de autorrealização é projetada nas redes de modo a nos causar ânimo, indignação, felicidade ou tristeza de acordo com as notícias, atualizadas a cada 5 minutos nos portais da mídia. Não se pode mais ler um jornal pela manhã e refletir sobre os fatos à noite, para, no outro dia, receber uma informação nova. Não há tempo para a reflexão quando estamos presos numa lógica na qual buscamos informação, falamos com pessoas conhecidas, trabalhamos e nos divertimos num mesmo espaço, que é o espaço virtual. Não é possível fazer sexo sem recorrer à rede, nem trabalhar sem recorrer à rede, nem se divertir sem recorrer à rede. Isso justifica o fato de intensificarmos a nossa vida, pois não há mais descanso. Nós mesmos nos extenuamos para medir nossos limites. Como disse Ghiraldelli, não pertencemos mais a uma geração deprimida, somos uma geração de histéricos.

 

[1] GHIRALDELLI, Paulo. Bolsonaro nos oferece a vida histérica. disponível em:https://www.youtube.com/watch?v=cxCaRrLhMhc. Acesso em 2 nov. 2018.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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