Crítica semanal Mayã Fernandes

A irracionalidade à espreita

Em O incômodo da democracia escrevi sobre a proximidade entre a propaganda nazista e a propaganda utilizada na campanha política de Jair Bolsonaro. Ao visualizar o fim das eleições e a ascensão do fascismo, lembrei-me do texto A Teoria freudiana e o modelo fascista de propaganda de Theodor W. Adorno (1951). Esse texto é fundamental para pensar sobre a relação entre as massas e o líder, tal como a propaganda é necessária para a ascensão de um ditador.

O líder autoritário conta com a propaganda fascista e com agitadores, pessoas que preparam o conteúdo posto em circulação, abordando temas políticos pouco concretos e racionais. Esses agitadores estão a serviço dos líderes fascistas, estando centrados na ideia deste líder, não importando se ele realmente lidera ou se apenas faz parte do grupo. O que importa é a imagem a ser representada para as massas. Neste sentido, a imagem do líder necessita afirmar-se como autoridade máxima e ameaçadora. Essa imagem reanima o que Adorno chama de pai primitivo.

Essa figura é a de um homem onipotente e violenta, capaz de superar a própria imagem do pai real. Adorno diz que com o crescimento dessa figura, ele torna-se um ego coletivo e que é a única maneira de se entender a atitude passiva-masoquista, ou o que chamamos de “vontade de se render”, deixando o comportamento político ser mais importante que seus interesses pessoais.

Adorno nos explica que o elo entre o líder e seus seguidores é o de identificação, que é o mais remoto laço emocional com o outro, é transformar o objeto amado uma parte de si mesmo. De modo narcisista, a imagem do líder amplifica a própria personalidade do sujeito.  Deste modo, a propaganda exaltou na imagem do Bolsonaro a salvação do país, a idealização de um líder.

Essa abordagem psicológica torna possível o entendimento do fenômeno Bolsonaro no Brasil. Além disso, evidencia a irracionalidade da massa ao apoiar um líder autoritário.

 

maya

 

MAYÃ FERNANDES é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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