Camila Vieira Crítica semanal

Cortina de Fumaça

No artigo de hoje tratarei sobre um tema que é concernente à linguagem e à mídia,  o fireholsing, que, numa tradução livre, teria a ver com usar uma “mangueira de incêndio”. O fireholsing é a prática de utilizar um tema quente, explosivo, para causar alta comoção e, logo em seguida, jogar água no debate criando uma enorme cortina de fumaça sobre o problema que realmente interessa. É importante estudarmos essa tática porque ela já vem sendo utilizada há bastante tempo pelos partidos e pelos movimentos de direita para sequestrar o debate e, mais recentemente, descredenciar as fontes seguras de informação, equiparando-as a qualquer panfleto partidário ou propagador de notícias falsas. A tática é muito simples: basta que um sujeito relativamente conhecido emita uma opinião que fira as convicções do “inimigo”. Os grupos que se sentirem ofendidos , diante da alegação, por sua vez, serão porta-vozes de opiniões que rebatam esse conteúdo emitido, colocando-o em pauta na mídia. O debate ganha visibilidade, como um princípio de incêndio, e serve de cortina de fumaça para encobrir pautas que realmente sejam de interesse à esse grupo, e que estejam ameaçadas. Estando o foco do debate em outro lugar, este grupo “inimigo” é pego de surpresa porque não consegue se reagrupar e colocar os olhos da sociedade sobre o foco do que o grupo “ fisgado” julga ser mais importante.

Sendo mais clara, pegue como exemplo as declarações que um cantor sertanejo emitiu sobre Fernanda Lima, a respeito de uma fala feminista que ela fez em seu programa “Amor & Sexo”. Não assisto ao programa, não ouço sertanejo, mas tenho quase certeza que o sujeito já pode tentar se eleger a deputado, tamanha a comoção gerada por conta do comentário tosco e machista que ele fez a respeito de Fernanda. Um outro exemplo, que causou muita indignação, foi o do recentemente eleito Wilson Witzel, que, em conjunto com dois asseclas que não merecem ter o nome citado, rasgaram uma placa em homenagem à Marielle Franco, para, logo em seguida, serem eleitos para a câmara do Rio de Janeiro. Não defendo que não se rechace declarações homofóbicas, machistas ou o que quer que seja, mas que e tome cuidado com este tipo de palanque que está se dando aos conservadores desde há muito tempo. Ou alguém acreditava que as declarações “polêmicas” de Bolsonaro, no CQC, o levariam  à presidência da república? Muito da permanência de sua figura nas redes sociais se deve ao compartilhamento em massa que ele recebeu não só de seus partidários, mas de pessoas que, com intenção de combatê-lo, fizeram aquele Hate amigo maroto. Like e deslike são nada mais, nada menos, que ENGAJAMENTO para os algoritmos.

Se eu não engano, é na música “Esquiva da esgrima” que o artista Criolo afirma “ é que o anzol da direita fez a esquerda virar peixe”. Sim, caímos, com muita frequência em debates toscos, que não levam a lugar nenhum, criando engajamento desnecessário em “notícias” feitas para mascarar pautas que realmente importam. Enquanto estávamos debatendo o cantor sertanejo, como se ele tivesse o mesmo status de formador de opinião que Fernanda Lima, o Senado votava um corte de 50% para a educação[1]. Enquanto estávamos inundando os nossos grupos familiares e as nossas redes sociais com críticas a Jair Bolsonaro, tornando-o mais conhecido, estávamos mais distantes de entender como o golpe se desenhava e como a direita estava ganhando espaço no youtube, através de canais cuja prática é a desinformação. Não conseguimos desconstruir o Kit Gay nem o Escola Sem Partido, porque ainda não aprendemos a debater sem morder essa isca discursiva. Ficamos dando voltas e voltas na nossa bolha, sem mostrar à sociedade que o real motivo da tal Escola sem Partido  e do “Kit Gay” é tirar o foco dos reais problemas que a educação brasileira enfrenta, impossibilitando uma discussão mais profícua, que leve a população a perceber que a resolução dos problemas brasileiros não são simples. Enquanto não formos mais espertos em nossa tática de comunicação, perderemos cada vez mais batalhas. E esse é só o começo.

[1]https://exame.abril.com.br/economia/senado-aprova-corte-em-fundo-para-educacao/amp/?__twitter_impression=true

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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