Carolina Lopes Crítica semanal

acervo do masp – quem viu jaime lauriano? – texto 1

não vou a são paulo desde criancinha. de lá, não lembrava de quase nada, não conheci nenhum museu. nunca tinha entrado num museu ainda, na verdade. quase 70% dos museus brasileiros estão no sul e no sudeste. são paulo é o estado com mais museus, tem praticamente o dobro do rio de janeiro. eu não conhecia nenhum deles.

esta semana, finalmente, fui à são paulo. em 4 dias, visitei exaustivamente todos os centros de arte mais importantes. vi todas as exposições mais significativas deste momento. em primeiro lugar, masp, acervo em transformação: tate no masp. ali estava a oportunidade de conhecer obras de grandes artistas da história da arte ocidental, aqui, no brasil.

na exposição, 223 obras, distribuídas pelo espaço em ordem cronológica. textos, muitos textos. importantíssimos para contextualizar as obras e os artistas. era uma emoção a cada avanço: bellini, botticelli, rafael, bosch, el greco, rembrandt, delacroix, renoir, cezanne, manet, monet, gauguin, rodin, modigliani, matisse. até aí, pura emoção, pernas cansadas, olhos lentos. muitas obras, muita informação. até que comecem obras mais recentes, demora. quando falo de obras mais recentes, falo de um momento em que se encontrem artistas mulheres, negros, temática não burguesa, latino americanos, etc.

foi depois de muito tempo que encontrei nus, de susane valadon. nus femininos, pintados por uma mulher, em 1919. demorei pra ver di cavalcanti, flávio de carvalho. quando cheguei a olhar as cores e energia de candombe, de pedro figari, pensar em heitor dos prazeres, que estava ali perto, já estava com dor de cabeça. já tinha os olhos ardidos, quando vi a experiência presente na pintura de josé antônio da silva, lindo, lindo, lindo.

lá já no fundo, já estava mais escuro, tinha anoitecido, me vem elsa o. s. com dentro de casa que faz pensar tanto, quando em paralelo a alpargatas de teresinha soares. só já sonolenta alcancei os garis, de carlos prado, tão necessário aos nossos tempos. e quando chego a head of a man de francis newton souza, já não tinha a mesma energia inicial para vibrar. só lá atrás, na turma do fundão, bárbara wagner, cinthia marcelle, guerrilla girls e bem mais no fundo, jaime lauriano.

apesar do cansaço, inevitável arquitetar outros desenhos possíveis à riqueza artística e cultural daquela sala. uma necessidade de organizações que priorizem o que é nosso. nossa essência mais intrínseca: somos brasileiros, mulheres, negros, latino-americanos, fomos colonizados, tivemos acesso recente e reduzido à educação e à cultura. distribuir obras de arte pelo espaço, de forma que façam sentido, novos sentidos. ninguém desiste no meio do caminho, se lá no fundão, estiver um monet. mas quem viu jaime lauriano?

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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