Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Este não é apenas mais um filme sobre Vincent Van Gogh

“No Portal da eternidade” é o mais recente longa do diretor Julian Schnabe (conhecido por “O Escafandro e a Borboleta” de 2007). O filme começa com a viagem de Vincent Van Gogh (impecavelmente interpretado por Willem Dafoe) ao sul da França. Momento em que o artista, já com seu estilo bastante definido, abandona a vida em Paris e segue para Arles, se entregando a uma vida solitária permeada pela natureza, pelos seus sentimentos e questionamentos. A trama (embora não seja cronológica) abrange um arco temporal que vai da vida no sul da França, à passagem por instituições psiquiátricas, até os dias finais de Vincent.

Assim como Van Gogh estava interessado em pintar, Julian Schnabe está interessado em fazer cinema – muito mais do que em contar uma história apoiada em uma narrativa (inclusive, já amplamente difundida). Portanto, “No Portal da eternidade” é um filme que diz respeito à linguagem cinematográfica e não ao gênero da cinebiografia. É sobre o processo do artista. E não sobre a trajetória do gênio póstumo. É um filme tátil, cuja a fotografia está a serviço de sensações. A câmera de Benoît Delhomme (diretor de fotografia), não nos indica sobre como olhar uma pintura de Van Gogh, mas pretende nos inserir no exercício da abstração (psicológica e formal) de vivenciar a realidade (instável e intensa) de Van Gogh.

E isso significa uma caminhada solitária pelos campos de Arles para sentir o quente da luz que chega na pele, o gosto da terra, o toque das pontas dos dedos na grama, o ardor do amarelo, a profundidade do azul, o cheiro dos campos de girassóis mortos que anunciam o inverno. Mas essa caminhada não é sempre agradável: vamos de close-ups para planos abertos quase que sem cortes. A câmera na mão deixa o protagonista solto em sua própria fragilidade. Vagamos com Vincent e sentimos tudo tão intensamente como ele. A trilha sonora ambienta os estados mentais. O uso de lentes grande angulares, denotam uma figura mentalmente perturbada. Mas a atuação emocional e penetrante de Dafoe, nos conecta com um personagem delicado, incansável e entregue à sua busca existencial. Inclusive, Dafoe, que não levou o Oscar ano passado por “O projeto Flórida”, é certamente um forte candidato ao prêmio da Academia no ano que vem por este papel.

Sem dúvidas, a câmera em primeira pessoa pode ser um recurso óbvio em filmes centrados em um único personagem. Mas no caso de “No portal da eternidade”, o uso da câmera subjetiva é um recurso de linguagem radicalmente contemporâneo que desloca o entendimento da câmera-olho para a câmera-gesto. Um cinema que tem o desejo de ser pintura. Mais do que o clichê de “habitar a mente” do protagonista (o que, inclusive, seria exigir demais dos espectadores), a câmera nos convida a experimentar o mundo percebido por ele. Como sugere Merleau-Ponty: “perceber não é, propriamente, uma etapa anterior à pintura, pois, para o pintor, perceber já é pintar”. E Julian Schnabe faz uso do mesmo recurso: não diferencia cinema e percepção, sugerindo que o espectador (assim como o artista) use seu corpo na tentativa de apreensão da natureza. Uma busca que é sensorial e intuitiva e não simplesmente narrativa ou descritiva.

É inevitável, portanto, mencionar que o diretor do filme também é pintor. E é considerado um dos mais originais da sua geração. Identificado com o movimento neo-expressionista norte-americano, Schnabe, entre nomes como Basquiat e David Salle, fez parte de um contingente de artistas cuja expressividade era marcadamente um contraste ao intelectualismo generalizado da arte minimalista e conceitualista, a partir do final dos anos 70. Então, de modo geral, a obra (pictórica e cinematográfica) de Schnabe aponta para um equilíbrio entre preocupações técnicas e reverberações emocionais, os sentimentos na arte.

Schnabe dirige o filme como um pintor e valoriza tanto o processo artístico de Vincent, que os demais personagens evoluem pouco e não são aprofundados. O que não chega a ser um problema, até porque interagem o suficiente para desmistificar alguns pontos: Gaugain e Van Gogh eram próximos (e não inimigos) e concordavam em discordar sobre suas respectivas práticas; Vincent não era uma pessoa querida, mas certamente não era um anônimo: outros artistas acompanhavam seu trabalho e a crítica chegou a escrever (elogiosamente) sobre sua obra enquanto ele ainda era vivo; Theo, irmão do pintor, o sustentava financeira e emocionalmente, mas definitivamente, não sabia como vender seus quadros; e, finalmente, fica o entendimento de que Van Gogh não se matou.

Para além das pinceladas biográficas, os elementos estético-visuais é que são a alma do filme. A incomunicabilidade, em termos formais, que Vincent enfrentava em seu tempo, está assimilada no longa, que não se conforma em uma compreensão típica do belo, da perspectiva e da narratividade, mas que, exatamente, mistura, a partir de recursos de linguagem, dados concretos da realidade com a intensidade da mente (e dos sentidos) que a percebem. A tela do cinema, assim como a tela da pintura, é um campo de experimentação.

O filme pode parecer lacônico e excessivamente lírico para aqueles que querem saber mais sobre a personalidade Van Gogh, sobre os fatos que marcaram sua vida. Mas é uma experiência revigorante e sensorialmente muito satisfatória para aqueles que querem saber mais sobre seu processo artístico, aquilo que deu sentido para sua vida. Engana-se quem pensa que a ideia de eternidade reiterada ao longo de todo o filme é vinculada ao fato de Vincent só ter alcançado reconhecimento após sua morte e que, portanto, sua obra o fez imortal. A vida de Vincent é que se imortalizou em sua obra. Citando mais uma vez Merleau-Ponty: “o eterno é a própria vida”.

 

Filme assistido no 20º Festival de Cinema do Rio. Estreia no circuito comercial brasileiro em 7 de fevereiro de 2019.

 

ludmilla

 

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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