Camila Vieira Crítica semanal

O estado sombrio da matéria

Quem visitou a exposição Onde, agora? da artista Cristina de Pádula, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, cujo encerramento será neste dia 23 de novembro, provavelmente pensou de imediato que se trata de uma exposição sobre a matéria. Os fragmentos da mistura de parafina com óxido de ferro preto, preenchem as três galerias do primeiro andar do edifício, ora compondo as paredes da primeira galeria, através das inscrições que a artista mesma realizou, sobre um fundo igualmente preto, ora como um site-specific, na segunda, conferenciando a obra Rio Rounds, 1995, do artista Richard Serra, equivalente a grande círculo pigmentado e igualmente preto, na parte central do teto. Na terceira galeria, essa primeira relação semântica, contudo, se expande através da poética ressaltada por meio da curadoria de Natália Quinderé, que explora espacialmente essa “escassez em oposição à fartura material”, denotada no reuso das mesmas 700 kg de parafina que acompanham Cristina ao longo dos seus mais de 20 anos de carreira. Apenas através da destruição das obras antigas é possível fazer algo novo. Os 34 registros dos trabalhos destruídos, igualmente escuros, são acompanhados por uma pilha papéis amassados, similarmente negros, que empanturram as gavetas de uma cômoda de madeira. Inquilina de uma sala desbotada, uma tela vizinha à cômoda exibe a artista em pleno trabalho.

Foi interessante notar que, para além da economia de materiais e da autodestruição dos trabalhos, transmutados em novas coisas, há uma possibilidade de leitura que só me ocorreu quando pensei nos tempos atuais enquanto tempos sombrios. Antes de escrever o texto crítico que você está lendo neste exato momento, me perguntei, à frente de uma página em branco: Como posso voltar a falar sobre exposições diante da condição política na qual este país se encontra? É uma tarefa árdua se desgarrar da vontade de fazer comentários políticos quando tantas novidades ruins nos assolam diariamente. A arte sempre se mostrou um refúgio seguro quando eu queria pensar em outra coisa, no entanto, a internalização da desgraça coletiva torna esta tarefa praticamente impossível. O primeiro pensamento que ocorre a uma pessoa apaixonada é a imagem de quem desperta essa paixão. Se estivermos apaixonados pela política, será a figura do nosso algoz que nos atormentará. Como sujeito pensante, portanto, as conexões entre este processo de destruição material que Cristina realiza, pode ser concatenado ao estado brasileiro das coisas, quando me coloco em questão.

Já dizia o filósofo que no Universo nada se cria, tudo se transforma. Estamos pois, dentro de uma lógica Cósmica que vai muito além da nossa pequena Galáxia, surgida, segundo a ciência hodierna, numa grande explosão. Essa explosão teria acontecido porque a matéria se condensou de tal forma que houve uma implosão, ocasionando o reagrupamento desta matéria mesma numa coisa diferente de outrora. Segundo a ciência humana, o número de átomos da atual configuração cósmica é o mesmo número de átomos presentes no Big Bang. Como a gravidade é a lei sagrada que rege este universo, é muito provável que após um certo nível de expansão os astros refaçam os reencontros primordiais, sendo paulatinamente atraídos uns aos outros, nesta dança de incontáveis eras. O mundo material, portanto, é simultaneamente infinito e limitado. Se é possível traçar um paralelo científico à obra de Cristina, verdadeiro seria afirmar, do mesmo modo, que a leitura política do momento social brasileiro cai como uma luva à essa poética da destruição. Não deu tempo de esquecer das cinzas do Museu Nacional.

As salas soturnas, cujas janelas estão encobertas, nos convidam a pensar a respeito dos tempos sombrios que provocaram este artigo. O momento é de incertezas porque as bases democráticas da nossa política foram corroídas; contudo, sabendo que desta erosão irrompe outra coisa, para onde ir, agora?

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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