Carolina Lopes Crítica semanal

acervo do masp – quem viu jaime lauriano? – texto 2

Partimos da condição presente e local. Acervo em transformação: Tate no MASP está desenhada com as bases em seu lugar e seu tempo. Com 223 obras das coleções do MASP e da Tate, a mostra reúne obras de artistas consagrados pela História da Arte, de autorias desconhecidas, de artistas que estão em entrada na historiografia da arte, e de outros, que passaram a fazer parte, por uma revisão historiográfica. Diferente de outras movimentações das obras expostas, a atual montagem não conta com uma ordem cronológica. Para além desta contagem, criam-se novas aproximações, em que parte-se de uma condição que situa o museu e os moradores deste local em seu contexto: estamos e somos do Brasil, América Latina.

Entendemos que vivemos hoje a era da virtualidade e nela temos a oportunidade de, quebrar, de certo modo, a linearidade temporal e histórica comum às sociedades ocidentais. Esta exposição se propõe a promover novos diálogos, produzir novos pares estéticos, narrativos e provocadores de reflexões. De certo modo, estes tipos de aproximações já se dão na virtualidade e propiciam um tipo de compreensão em que observa-se o narrador: quem conta e como conta a história. Deste modo, promove-se aqui um ambiente propício para novas percepções sobre a história, novos modos de contá-la, bem como novos narradores. As possibilidades são inúmeras, especialmente se numa contagem regressiva, fazemos uso do nosso olhar pós colonial para produzir interlocuções que façam sentido neste tempo e espaço.

Nesta nova arquitetura, apresentam-se primeiro as obras que, em outras configurações já estiveram no fundo da sala. Obras de artistas brasileiros e latino americanos à face da exposição. Torna-se concebível o nascimento de questões as quais elaborem um olhar outro, sobre as obras já consagradas pela História da Arte, que virão logo à frente. Ter neste primeiro momento este tipo de conversa entre obras de artistas latino americanos, trazem à luz o entendimento de que são obras produzidas a partir de naturezas absolutamente diferentes das europeias. Sejam nas questões religiosas, mitológicas, a vida cotidiana, os retratos burgueses, paisagens, política, trabalho, etc. Elas passam por um outro modo de sonhar, viver, trocar, resistir. Se dão em um processo de autoconhecimento e auto identificação, cartografando ainda as fronteiras e elaborando as concepções sobre dentro e fora. Entre América Latina e Europa. Como num processo de catarse, expõe a complexidade das populações que nascem sob uma mesma mazela: a colonização.

A exposição se dá em dois momentos distintos, mas híbridos. Traçando relações primeiramente entre obras de países da América Latina, levando em conta os modos como experimentamos a vida, o lugar, as culturas. Modos estes que transcendem à teoria ou tradição européias, tendo, por exemplo, em sua origem um outro saber que se dá na oralidade. Em momentos de fronteiras sutis, começa a clarificar como a construção de uma tradição artística se dá neste continente, surgindo por demandas europeias, já com seus cânones e padrões pré-definidos. Aqui, evidenciam-se questões sobre os acessos, em ambos os fluxos. Ainda num estabelecimento de como se dá esse fluxo, de que maneira que é possível comer e regurgitar algo novo, originalmente latino-americano.

Como numa escavação arqueológica, tem como ponto inicial aquilo que é vivo, real, presente no lugar onde se está, adentrando para aqueles mais longínquos, que também se apresentam aqui, mas que hoje já não podem mais se impor como único modo de descortinar a realidade. É um modo de, principiando de seu contexto, temporal e espacial, olhar, primeiro de longe, para as fontes das quais bebeu, voluntária e involuntariamente. Para então chegar ao lugar primeiro da arte ocidental, suas relíquias, com um olhar de êxtase sim, mas também reposicionado. Compreendendo que, apesar do que diz o mapa, a Europa não é o centro do mundo. O centro do mundo para os latino-americanos, é a América Latina.

Este texto se trata de um texto curatorial utópico de uma exposição ideal da coleção do MASP.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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