Crítica semanal Mayã Fernandes

Gravetos armados e os 10 anos de Jabutipê.

Neste mês, o ateliê Jabutipê, de Porto Alegre, faz 10 anos de existência, possibilitando a livre criação de artistas que deixam sua marca pela cidade. A obra “gravetos armados – intervenção na fachada do Jabutipê” (2011), do artista Antônio Augusto Bueno foi uma das obras que ocupou a fachada do ateliê.

Para um diálogo existir, é preciso um encontro de ideias. Certamente, o que mais me deixou surpresa foram as obras de Antônio. “Gravetos armados” escondem linhas tortas que tentam ser retas. Dentro da obra, existe um círculo que parece se formar ao fundo, oculto, divide espaço com a janela. O sujeito que está submerso na natureza, necessita sair para contemplar. Já o que está na superfície, no urbano, em sua curiosidade, resiste e por vezes não compreende o que a imagem provocativa apresenta.

A obra torna possível compreender a representação do lento movimento da busca, repulsa pelo outro e exibe o tempo das coisas. A obra foi mais uma que passou pelo ateliê nos últimos anos. O limiar entre conforto e desconforto. O encontro que afasta, rude que fura, em seu centro se mostra ninho. É preciso acostumar o tato e a visão. A janela é o convite para olhar, para adentrar o opaco e ver. O bruto sobressalente da arvore é a abertura para a ressignificação da sensibilidade. O estar perto, colado e rente, se faz urgente e é preciso sentir.

O ponto que outrora era uma linha, aguarda a chegada do encontro com seus semelhantes para se transformar em algo mais: final, reticências, uma reta ou um ninho de um só. Nas mãos do artista, as idas e vindas refletem as viagens ao obscuro feitas com gravetos tortos, que um dia talvez quisessem ser retas, ou apenas são em morte o que sempre deveriam ser, gravetos tortos. No devaneio de pontos e linhas existe uma vírgula, pequena folha, para mostrar que não precisa de pressa, como uma pausa, um suspiro de esperança frente aos inúmeros desencontros.

A instalação de Antônio Bueno revela toda uma gama de expressividade. Em suas obras, reflete a proposta inicial do espaço artístico: o Jabutipê é lugar de encontro com o outro, de mais pura resistência.

maya

 

MAYÃ FERNANDES é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

 

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