Crítica semanal Daniele Machado

Se você acha que eu estou derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados – Texto 1

Já dizia Marx. Na verdade, é claro que com essas palavras na verdade foi Cazuza mesmo. Mas poderia ter sido o filósofo alemão também. Há um certo anacronismo em tentar encaixar Marx de todo jeito hoje. O capitalismo, cuja característica camaleônica segue em uma aceleração impossível de acompanhar, mudou muito desde que O Capital foi escrito. Mas, apesar disso, suas estruturas básicas seguem sólidas. É nisso que reside a sua força. Mas os dados também estão rolando para ele.

Se a maior crise econômica depois da crise de 1929 demorou pelo menos 3 anos para chegar no Brasil, o ódio a qualquer vestígio de esquerda demorou pelo quase três décadas. Enquanto o mundo declarava todos os pecados da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, assistindo o seu simbólico enterro ao vivo nas telas de televisão com a derrubada do Muro de Berlim, o Brasil finalmente elegia democraticamente um presidente. E Lula, figura máxima do Partido do Trabalhadores, iniciava o ciclo de 4 candidaturas, com 3 derrotas até alcançar o poder.

O PT realizou 13 anos de oposição no período democrático até 2002. Mais os anos desde que o partido foi fundado durante o regime ditatorial em 1980, foram pouco mais que duas décadas de oposição. Uma oposição que prometeu tudo, inclusive a conciliação de classes. E só por isso foi eleito. E o que vem ser a conciliação de classes? Nenhum governo pode governar para todos (leia-se todas as classes sócio-econômicas), visto que os interesses dos donos dos bancos, das indústrias, do agronPatregócio são bem diferentes dos bancários, dos operários (incluo aqui também a indústria da educação, onde agora os professores perderam a função de educador e passaram a simples mediadores de conteúdos) e dos agricultores. Enquanto que os interesses dos mais empregados é de receber o valor justo pelo trabalho empenhado, o dos patrões é continuar o que se faz desde que começou essa história toda de capitalismo: tudo bem você receber, não é trabalho escravo, mas eu fico com a maior parte do que você produz, porque eu tenho a máquina e você só tem as mãos.

Então, é impossível atender o interesse do patrão dono da máquina e do empregado. É preciso fazer aqui uma pontuação pois, nem todo patrão é dono da máquina. Há muitos patrões no Brasil, como em todos os lugares, que são os patrões classe média: oferecem serviços e não produtos em larga escala de produção. Eles também arcam com as imposições dos donos das máquinas, suas margens de lucro às vezes existem, às vezes não, porém, eles pensam ser os donos das máquinas. É assim que consomem, que vivem, que se portam na sociedade, que votam. Mesmo que seus serviços sejam oferecidos nas casas dos verdadeiros patrões donos das máquinas e eles vejam as diferenças radicais entre os cenários deles e os seus, eles ainda assim acham que pertencem ao mesmo lado dos verdadeiros patrões. Acreditam estar muito mais próximo deles que do trabalhador que depende somente das suas mãos.

Se então conciliar os interesses entre os patrões donos das máquinas, os patrões que não são donos das máquinas, mas pensam que são, e os trabalhadores não é possível. Se o PT nunca prometeu uma revolução socialista ou qualquer que seja, mas sim prometeu a conciliação de classes.  Qual foi então o desencanto com o PT? Afinal, ele fez o que ele prometeu. Há uma questão aqui muito relevante para pensar a frustração com o PT e a eleição presidencial desse ano.

A geração de pessoas nascidas entre o fim dos anos 1940 e o início dos anos 1970, que hoje tem algo em torno de 50 e 70 anos, foi educada em uma ditadura. As que tiveram oportunidade de frequentar uma escola, não estudaram filosofia ou sociologia. As que chegaram a universidade, cursaram a graduação silenciadas, onde uma série de professores e estudantes não estava mais por lá. Foram sequestrados, mantidos em cárcere privado, torturados e assassinados. Com sorte, alguns foram “apenas” aposentados compulsoriamente ou exilados, com sorte maior ainda de continuar os estudos em outros países. Por fim, muitos nem chegaram a escola e, muito menos, a universidade.

Quase três gerações nunca havia vivenciado uma democracia, suas formas de funcionamento e truques. Em outra perspectiva de números, o que chamamos de Brasil, o território invadido por pelo menos 4 reinos, teve 222 anos de colônia, mais 57 de império, mais 33 de ditaduras e, apenas, 87 de democracia. Sendo que, desses 87, nunca tivemos uma geração inteira que nascesse e morresse em uma democracia e pudesse passar sua experiência para as próximas gerações e assim, sucessivamente.

Veja bem, persigo nesse momento do texto uma análise sobre as gerações que votaram em um presidente pela primeira vez em 1989, mas, não afirmo que a democracia seja a solução para todos males. O que afirmo é, nunca o que podemos chamar de povo brasileiro chegou em um mínimo de maturidade democrática, a ponto experimentarmos saber se é esse o melhor sistema político para nós. O que também não quer dizer que a alternativa a democracia seja um regime totalitário. Precisamos pensar, pesquisar, estudar…. E aí, quem pesquisa política, sistema, gestão e coisas afins? São as ciências humanas, que vem sendo atacada recorrentemente, onde todos se acham capazes de fazer críticas e análises a partir ângulo de situação que surja.

Por fim, resta a questão, voltando para Lula: teria um país maduro em termos de democracia, eleito Lula? Respondo que sim, teria. Diante das outras opções (no segundo turno com Serra, em 2002, e com Alckmin, em 2006) naquele contexto, teria sim. Agora, outra pergunta. Teria um país, maduro em termos de democracia, eleito Lula com esperanças revolucionárias? (Leia-se, sem conciliação de classes). Não, não teria. Porque o PT nunca prometeu isso.

Então, dentro de análises radicais que procuram culpados pelo ódio ao PT ou pela prevista ascensão sinistra de um novo regime ditatorial no país, que foi procurado pela própria população, falta maturidade. E aí, não é questão apenas de educação, mas também de tempo para entender esse jogo, como ele funciona. Mas, é claro, também educação e, muito importante também, comunicação. Esse texto continua semana que vem. Até lá!

 

dani

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

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