Camila Vieira Crítica semanal

Como não deixar a cultura morrer

Ao que tudo indica, será árduo o caminho do setor cultural no Brasil. Talvez nos reste a fatia do patrocínio da iniciativa privada, mas, diante de ministros envolvidos em todo o tipo de escândalos, comprometidos, porém, única e exclusivamente em eliminar a oposição ideológica, já podemos alegar que a famigerada Lei Rouanet está com os dias contados neste desgoverno comandado por Bolsonaro. Nem nos tempos mais sombrios da Ditadura Militar, nosso ensino público esteve tão ameaçado, como agora, pelo projeto do “ Escola sem partido”, que nada mais é do que uma cortina de fumaça para acobertar a ideologia da extrema direita que, fascista até ossos, odeia a ciência, os artistas e os intelectuais. Já há, por toda a internet, grupos formados por artistas e intelectuais feitos para tentar barrar os retrocessos previstos e disputar a narrativa com grupos que, muito antes do que esperávamos nós, os progressistas, dominavam a rede com falácias de toda a sorte, desde teorias da conspiração que denunciam um pressuposto “marxismo cultural” preponderante nas esferas públicas, que nunca se verificou na realidade, até a anticiência que move grupos contrários à vacina e terra-planistas.

Não sabíamos lidar com a demonização que a direita propagou a respeito da classe artística, dos movimentos sociais, das minorias e, aparentemente, ainda não sabemos. Cabe perguntar o quanto a arte e a cultura que produzimos chegam àqueles que “para mudar tudo isso aí”, abrem mão, sem perceber, de sua própria saúde, segurança e educação. Foi apavorante notar que muitas pessoas pobres, que devem ganhar cerca de um salário mínimo por mês, advogaram que o fim do Mais Médicos se deve a uma pressuposta libertação dos “escravos médicos cubanos” que, com todo o benefício de não pagar aluguel, alimentação ou transporte, tiravam mais de 3 mil reais livres por mês, estando, deste modo, entre os 10% mais ricos do país. A que classe se acham pertencer os que recebem menos que um “escravo cubano”? O contorcionismo retórico propagado pelos Bolsonaristas que se alimentam da Anti-filosofia de Olavo de Carvalho é assustador.

Não é aparente a visão religiosa que circula entre o núcleo duro dos apoiadores deste candidato antidemocrático, ela é real. Ninguém menos que Silas Malafaia foi o responsável por indicar o novo Ministro da Educação, um colombiano formado em teologia numa universidade desconhecida, que ministra aulas numa escola militar. Tanto Velez Rodriguez, atual cotado para assumir o Ministério da Educação, quanto o futuro Chanceler, Ernesto Araújo, advogam que a principal função deste governo será o extermínio do pensamento marxista e gramsciano, ou seja, qualquer tipo de pensamento não alinhado aos preceitos da extrema direita. Talvez, um dia, possamos ter pena dos eleitores de Jair Bolsonaro que, ao se confrontarem com um tuíte do recém eleito presidente, dizendo não ser a corrupção o seu principal foco, mas o combate ideológico, perceberam que o estelionato eleitoral do PSL é menos sutil do que o PT. Além da saúde, a corrupção também já saiu do radar da corja que gravita o presidente. Afinal, é importante lembrar que existem pelo menos quatro ministros, a começar por Onix Lorenzoni, envolvidos em Caixa 2 e falcatruas de todo o tipo.

Precisamos ter sorte, controle emocional e táticas contemporâneas para combater a horda de idiotas que assumiram o poder. Enquanto tentamos, de alguma maneira, formar frentes antifascistas no facebook, whatsapp e entre canais progressistas no youtube. Empresas alinhadas ao projeto retrógrado instalado no país, estão financiando campanhas milhonárias de mensagens falsas na internet e robôs que inflamam o debate nas redes, fazendo parecer muito maior do que é o séquito de bolsominions de carne e osso. Enquanto nos descabelamos, Ciro Gomes e Fernando Haddad disputam no cabo de guerra qual o partido, PDT ou PT, que encabeçará essa oposição, que tende a aumentar geometricamente conforme as cagadas do atual governo se intensificarem. Neste entremeio, como não deixar a cultura morrer?

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s