Carolina Lopes Crítica semanal

o verso das coisas

barraca armada.    3 pernas. pata de caranguejo. manequim femininopoliuretano derretidodentesgengivasdesenhoanimado.  rédea. cela. boneco derretido. cavalo. cavalo. cavalo. cavalo.

projeto cavalo: quadrivium 8 patas. parte do programa arte atual do instituto tomie ohtake, a expoisição é produzida em conjunto pelos artistas adriano motta, cadu, eduardo berliner e paulo vivacqua, cada um deles com produções artísticas de naturezas distintas, chegam a trabalhos realizados coletivamente, que também gritam para todos os lados. é a cabeça girando, olhos esbugalhados, língua de fora, gritando e falando palavras, vezes inteligíveis, vezes absolutamebte guturais.

redea. cavalo.    luva branca. tecido enrrugado.         cavalo. dentes. bocas arreganhadasolhosaltante.                           gengiva.

é abrir a porta do quarto de uma criança, entre a infância e a adolescência: meias, brinquedos, desenho animado na tv, dentes crescendo, dentes caindo, corpo, plástico, biscoitos, bonecos, experimentos. agudas e desconexas, as experimentações deste período apontam, com dedos, membros, umbigos, bocas, narizes, pedaços de corpo, e se espalham por todos os lados. como o pensamento, com acúmulo de referências que, ora coincidem, ora não. estímulos diversos, facilmente reorientam a atenção dos infantes, sons, sem ritmo marcado, imagens profusas, aparecem ininterruptamente: viram-se os olhares, o pescoço, a cabeça, para direções ilimitadas.

máscaras.                orelhas. pata de caranguejo.cavalo. cavalo. cavalo.   cena de velório. cena de rua. mosca. uma cor.     gargantajogo.

uma curiosidade hipersenssivel. era forte o impulso por alcançar o limite das coisas. há ali, pungente, o rasgo, o corte, o risco. o desejo de conhecer as reações dos corpos. algo de uma bizarrice contida no ambiente particular da própria cabeça, que no espaço privado respinga. marca paredes, cama, armários, posters e tudo o que há. joga simultaneamente com profundidades e idiotices. parece querer, de fato, rasgar corpo que seja, com bisturi, faca, fogo, algo que abra. virar-lhe as pontas, até que se veja então o que há dentro. mais do que uma dissecação, se trata aqui de uma busca avançada pelas entranhas, agora expostas. o gesto adolescente presente na produção conjunta dos 4 artistas, vira do avesso, a lógica madura do conhecimento organizado. apesar da estranheza contida no interior do que é desconhecido, é também o gozo pela recvelação: o gosto pelo verso.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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