Crítica semanal Mayã Fernandes

A Arte Educação na berlinda

Sempre ressalto a importância da Arte Educação como grande percursora da mudança social. Contudo, com o advento do conservadorismo do presidente Jair Bolsonaro e suas indicações para a ocupação dos ministérios, vejo que a Arte Educação está por um fio.

O professor, que se diz filósofo, Ricardo Vélez Rodríguez divulgou seus planos para a Educação. Com ideias como “preservação de valores caros à sociedade brasileira” e a falsa conclusão de que “na sua essência” os brasileiros são conservadores e avessos “às experiências que pretendem passar por cima de valores tradicionais ligados à preservação da família e da moral humanista”, o ministro inicia sua jornada mostrando sua intenção. Projetos como “Escola sem partido” terão preferência na pasta. Mas o que a arte tem a ver com isso?

Ao entender que uma das funções da educação é transformar indivíduos e oferecer meios emancipatórios, temos como foco as ferramentas que levam à essa transformação. Enquanto política pública, não é possível esquecer da longa discussão em torno na BNCC – Base Nacional Comum Curricular. A Base estabelece conhecimentos, competências e habilidades que se espera que todos os estudantes desenvolvam ao longo da escolaridade básica. É importante lembrar que ela é orientada pelos princípios éticos, políticos e estéticos traçados pelas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica. Conforme definido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/1996), a Base deve nortear os currículos dos sistemas e redes de ensino das Unidades Federativas, como também as propostas pedagógicas de todas as escolas públicas e privadas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, em todo o Brasil.

No campo da Arte Educação, a Base vem passando por diversas mudanças em algumas áreas, como o ocultamento de termos como “sexualidade”, “gênero”, “comunidade” e a erupção de termos como “família” e “preconceito”. Ora, para quem tirou um tempo para observar o desenvolvimento da Base, percebe que ela além de estar em constante movimento, a sua construção perpassa por uma acirrada discussão entre o Estado e a Sociedade Civil. Acredito que neste novo governo com características ultra conservadoras, as artes, como um todo, estão em perigo. Como dialogar com um governo que se autodeclara conservador? O que esperar de um ministro que expõe seu fascínio pelo período militar?

Diante o atual cenário, consigo pensar em 3 possibilidades: A primeira, evoca a mudança radical na Base, modificando toda a política de educação, inserindo, sutilmente, habilidades e competência com um teor conservador; Em segundo, a retirada definitiva de algumas expressões artísticas, como dança e teatro; Em terceiro, talvez a ideia mais otimista, a Sociedade Civil conseguirá manter uma “guerra de braços” com o Estado e buscar de todas as formas a manutenção das discussões que são caras para o Componente de Arte.

Tenho a esperança de que as categorias engajadas na educação não nos deixarão chegarmos no fundo do mais profundo dos poços. E em algum momento teremos uma reviravolta histórica.

 

Referência da capa: Bia Leite. Série Criança Viada, 2013.

 

maya

 

MAYÃ FERNANDES é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

 

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