Crítica semanal Daniele Machado

Se você acha que eu estou derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados – Texto final

 

E aí falta comunicação… continuando o texto anterior, o PT em 13 anos não reformou o sistema de comunicação. Não seria tarefa fácil, mas tinha de ser feito. Em 2007, mesmo sonegando imposto de renda, que na época girava já em torno de mais de 600 milhões de reais, a Rede Globo, que possui a maior audiência nas TVs abertas, que junto às suas afiliadas chega a praticamente todo o território brasileiro, cerca de 98%, teve suas concessões renovadas até 2022. Há dez anos atrás isso teria feito toda a diferença. Porém, nessa última década tudo acelerou tão rápido em relação a internet, que entrou definitivamente no jogo de funcionamento da comunicação, que hoje a propagação de manipulação da informação ou as notícias falsas, ficaram a cargo das redes sociais, em especial, o whatsapp.

Esse ano que custa a acabar, começou com o assassinato de Marielle Franco, passou pelo incêndio do Museu Nacional e terminou com as eleições, que dos governos estaduais ao federal, optaram na maioria por discursos fascistas em nome da “anti-corrupção”. O jogo de construir o inimigo em comum a ser combatido para formar a sua própria identidade funcionou de novo. Seja Hitler com os judeus que afundaram a Alemanha, seja os militares de 1964 com os comunistas que acabariam com as famílias e com a igreja, seja os petistas corruptos e que tentavam corromper as crianças com o kit gay. Nesse último caso, ainda houve os sensatos que diziam não concordam com tudo que o presidente eleito dizia, que sabiam que ela maluco, mas que, às vezes, é preciso um maluco pra mudar tudo que está aí. E essa foi a principal promessa dela. Não houve qualquer proposta na campanha além dessa, “acabar com tudo que está aí”.

O sentimento de derrota de todos aqueles que sentiram o país avançar minimamente na educação e no combate a miséria nos governos do PT, foi imenso. Parece irreversível. E, pior, não podemos nem pedir que o eleito saia, porque a alternativa é o general, que é ainda pior. Mas os dados ainda estão rolando. Na verdade, eles não param de rolar. É difícil imaginar o que vem a seguir. Porque todo o mínimo construído em relação a direito dos trabalhadores, dos estudantes, das mulheres, dos negros ou LGBTs, ao longo de anos, vem sendo destruído em poucos meses. É como se o governo Temer fizesse uma transição para instalar o que está acontecendo agora.

Por outro lado, é importante considerar erros do grupo a que pode se chamar genericamente de esquerda, pois enquanto há disparidades terríveis em relação a população mais pobre do país, enquanto a arte e a cultura que tanto zelamos não chega a essa população mais pobre, chegam as igrejas, única alternativa de sociabilidade que resta a essas pessoas. O quinto poder, que hoje quase se confunde ao quatro (a comunicação) construiu as suas estruturas e nós estávamos aqui, discutindo e teorizando fervorosamente questões que se tornam quase irrelevantes diante da catástrofe que está à espreita e que, a essa população que é a maioria, quase nem se entende. O whatsapp veio, se consolidou e estamos aqui paralisados vendo a banda passar…

Voltando ainda pra queda do muro de Berlim… as discussões entre “capitalismo” e “socialismo” que moviam a política se encerraram e deram lugar a pequenas guerras com a força dos EUA e no restante se restringiram a discussões sobre micropolítica. Não que se trate de irrelevância, mas o primeiro problema da grande massa continua sendo dinheiro, acesso comida, à luz, à água, à alfabetização, à moradia, à escola, à universidade, ao saneamento básico, à saúde, à segurança. Não se trata de irrelevância, mas falar de mil siglas à margem do homem hétero ou de quem pode ou não falar o que, perde sentido quando alguém não pode comer, quando não pode respirar porque o esgoto fede na sua porta, ou tem que caminhar quilômetros pra acessar escola, trabalho, pra conseguir água. A URSS acabou, mas o capitalismo segue aí. E Sem sintonia com a grande massa, fechados nas bolhas de conforto em discussões que ignoram a realidade trágica da pobreza, em memes que só a gente entende, perdemos outro 7×1. Os dados vão continuar rolando como sempre, mas precisamos acordar porque se não vai demorar muito pra eles rolarem de novo. E o tempo não para… para cada ano perdido, mais a estrutura do outro lado se consolida…

Fica uma pergunta sobre especulações do que pode acontecer se continuarmos assim. O PT parece irrecuperável. O forjado MDB idem. Mas o PSDB continua tendo seus processos arquivados. Apesar de Alckmin não ter feito sequer uma ameaça a essas eleições, talvez, se continuarmos assim, seja o projeto futuro. Nem “esquerda” nem “direita”, mas o “centro”. E isso tudo pode ser um arranjo pra daqui a quatro anos. Mas eles também vão precisar se reiventar pra isso. Pode ser também que o presidente eleito nem conclua seu mandato. Leve o país a um caos bem projetado de guerra civil e os militares sejam a única alternativa bem projetada de restabelecer a ordem. O certo é a tal a tal musiquinha que avisa pra pisar ligeiro e não atiçar o formigueiro fala de um bichinho bem trabalhador e que se mexe bastante. O que temos mexido, não está funcionando. Nem militância virtual, a que a maioria da bolha tem feito, tem sido eficaz. Precisamos enfrentar e furar a bolha. Se não os dados vão rolar, mas significará outra derrota.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/exclusivo-como-a-globo-conseguiu-renovar-a-concessao-apesar-de-dever-ao-fisco/

Se você acha que eu estou derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados – Texto 1

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

 

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