Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Você pode substituir o chester da Perdigão por farofa de banana

Enquanto estávamos de boas ouvindo o maravilhoso novo disco do Baco Exu do Blues,
a Perdigão lançava seu comercial para o Natal 2018. A marca anunciou que, para cada
Chester comprado, outro seria doado para “uma família que precisa”. A intenção foi
boa, mas a campanha acabou sendo acusada de racismo, porque o comercial reforça(ria)
o estereótipo de que pessoas negras são menos favorecidas e precisam da ajuda de
brancos. Entre denunciar o racismo estrutural e acreditar nas boas ações que brotam no
coração das grandes corporações capitalistas nesta época do ano, fiquei pensando nos
profissionais que tiveram a brilhante ideia de seguir em frente com essa campanha.

Se por um lado, movimentos sociais e entidades de direitos humanos há muito vêm se
organizando para combater a omissão, o desrespeito, a construção de estereótipos, o
sexismo, o racismo e a homofobia, por outro lado ainda é preciso educar e engajar os
produtores de conteúdo e a mídia para que essas lutas reverberem. Estamos falando de
opressões que afetam diretamente as vidas de milhões de pessoas no país,
transformando-o no recordista de violência contra essas populações e recordista em
desigualdades sociais. Daí a necessidade, mais do que nunca, de trazer esses temas para
a comunicação brasileira.

É preciso apontar que, se o jornalismo e a publicidade são essencialmente misóginos,
racistas, classistas, lesbo-homo-bi-trans-fóbicos e excludentes, eles são, infelizmente, o
reflexo de uma mentalidade vigente na sociedade. Inclusive, é esse mesmo conteúdo
produzido com caráter jornalístico ou publicitário que tem a capacidade de legitimar,
justificar e incentivar tanto os discursos de ódio quanto os de inclusão.

Sendo assim, é preciso combater a invisibilização de certos grupos, o reforço de
estereótipos negativos e a falta de representatividade. É através da própria comunicação
que conseguiremos viabilizar, de maneira orgânica e eficiente, a produção e difusão de
conteúdos inclusivos sobre a diversidade humana. É preciso criar espaços e
oportunidades para democratizar a comunicação. Se é preciso dar voz, também se faz
necessário aprender a ouvir.

Cientes do papel da comunicação na formação de ideias e opiniões e ainda digerindo o
trauma que foram as eleições presidenciais deste ano, é preciso que redações, agências e
profissionais autônomos comecem a atuar de maneira mais responsável de modo a
contribuir, a médio e longo prazo, para a proliferação de notícias e conteúdos mais
positivos e equânimes no que diz respeito à diversidade humana. Precisamos de
coberturas e campanhas éticas, equilibradas e responsáveis, colaborando para o
desenvolvimento de uma comunicação democrática e condizente com os princípios dos
direitos humanos. Se ainda assim, você ficar na dúvida entre o chester da Perdigão e da
Sadia, aposte na farofa de banana.

 

ludmilla

 

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema

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