Camila Vieira Crítica semanal

Não trabalhe, reclame da crise

Durante a cerimônia de posse, em maio de 2016, após o Impeachment da presidenta eleita, Dilma Rousseff, Michel Temer afirmou: “Nós não podemos mais falar em crise. Trabalharemos. Há pouco tempo eu passava por um posto de gasolina na Castello Branco e o sujeito colocou uma placa lá: ‘Não fale em crise, trabalhe’[1]. Eu quero ver até se consigo espalhar essa frase em 10 ou 20 milhões de outdoors por todo o Brasil”. Esqueceu Temer, porém, que o posto estava desativado. A simbologia da frase içada sobre uma empresa falida, não poderia ser outra: de que adianta não pensar na crise, se a crise não é uma problemática do mundo das ideias? Aliás, como trabalhar se o cerne da crise é exatamente o desemprego, que tomou curvas catastróficas após o golpe-brando que desestabilizou as frágeis estruturas democráticas do país? Não há maneiras de não pensar na crise para quem a vive diariamente, nas periferias do Brasil. Aliás, é difícil até pensar, quando a grande maioria da população precisa se submeter a trabalhos de baixa remuneração e poucos direitos garantidos, apenas para colocar um prato de comida sobre a mesa.

Talvez não adiante a um jovem artista, vindo dessa periferia que vive a crise na pele, apenas denunciar, por meio de sua arte, que ela existe. Mesmo que a denúncia se dê no espaço urbano, em formato extravagante e com letras garrafais, antes, é preciso suprir a necessidade diária da alimentação, do espaço para pensar. É por isso que a obra de Bruno Coutinho, Não trabalhe, reclame da crise, 2018, reúne favoravelmente, à narrativa proposta, elementos que vão além da identificação do trabalhador com a figura que estampa a impressão de grande formato, presente concomitantemente na galeria do espaço e no muro defronte ao Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica: a obra apresenta uma proposta e fornece os meios para que ela se realize. A figura estampada congela no tempo a cena de  um homem negro, sem camisa, que abre, sorridentemente, na cozinha de casa, uma garrafa de cerveja. A descontração do pai do artista, retratado no trabalho, é o arquétipo da família brasileira, não aquela que os conservadores tentam advogar, mas daquela família que, apesar dos poucos rendimentos, encontram numa cerveja gelada, num churrasco de fim de semana ou nos programas dominicais da tevê um pouco descanso.

Se a cena de descontração atiça a vontade de romper o ciclo do trabalho, nem que seja por algumas horas do dia, o café da manhã que o artista disponibiliza, na rua, gratuitamente, convida o trabalhador a, por um breve momento, sentar, interagir com outros trabalhadores que fazem o mesmo percurso para chegar ao emprego e expressar livremente o seu pensamento, o seu conhecimento empírico e a sua relação com o mundo do trabalho que ele vive, em contraponto aos índices apontados, por meio de gráficos e projeções numéricas, pelos Institutos de Pesquisa, dos quais se ouve falar. Não é trabalhando por longas horas diárias, esperando o transporte público, ou caminhando por ruas escuras, com medo de ser assaltado, que o trabalhador tomará consciência de sua classe, de sua situação financeira e das causas políticas que o afetam diretamente. Os empresários, que usam recursos públicos para fins privados, bem o sabem. Reclamar não é uma posição puramente negativa, porque é verbalizando, jogando para fora, que podemos olhar para o problema com mais clareza. É preciso tempo para pensar, é preciso desfrutarmos do ócio, é preciso alimentar o corpo e a mente, portanto, neste aspecto, o trabalho pobre, acrítico , repetitivo, atrapalha a vida.

[1] BERTONI, Estêvão. Citada por Temer, placa ‘não fale em crise’ fica em posto desativado. Disponível em:https://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1771069-citada-por-temer-placa-nao-fale-em-crise-fica-em-posto-desativado.shtml. Acesso em:30 nov. 2018.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

 

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