Carolina Lopes Crítica semanal

a origem do mundo

mulher.

nas três últimas semanas, uma enxurrada inundadora, e necessária, de eventos protagonizados por mulheres. festival mulheres do mundo. todas. todas as atividades, palestras, exposições, shows, vendas de produtos e comidas, protagonizados por mulheres. shows importantes gratuitos de nomes como elza soares, letrux, carol conká, dona onete, luedji luna, flora matos, etc. dali pra pernambuco, outro evento, mimo festival. idealizadoras e produtoras deste evento enorme, que completa 15 anos, mulheres. shows, filmes e palestras gratuitas lideradas por mulheres. lia de itamaracá, filme sobre betty davies, chuva de poesia de hilda hilst, inara chayamiti e mayra maldjian, dirigindo filme sobre a rapper yzalú. eu, mulher, registrava as histórias deste evento, com um grupo de doze pessoas, onze eram mulheres. eram fotógrafas, videomakers, jornalistas, escritoras, artistas visuais, social medias. estivemos em uma pousada grande, famosa de olinda, administrada por mulheres. nas ruas, procuramos por histórias, encontramos vida, pelas bocas das mulheres com as quais nos conectamos. volto, festival ovárias, que acontece nesta primeira semana de novembro de 2018 em santa teresa, no centro municipal laurinda santos lobo.

mulher.

era elsa soares, essa mulher, preta, octagenária, falando em alto e bom som de comer e ser comida. fala de botar pra fuder. aconselha: não há quem possa dizer o que uma mulher pode fazer. é lia de itamaracá, com o poder da sua ciranda, dizendo: isso! quero foto, quero ocupar. tenho 78 anos e tem que vir gente pra frente, pra falar do lugar da mulher, pra falar do lugar do preto. é letrux, vermelha, clamando: molhamulhermolhada. carol conká, mandando na lata: me dê uma lambida lá. parece, assim, que o poder das entidades que nos representam hoje passa por esse lugar original: a buceta. o nascimento dessa nova configuração de representações. o mundo onde as mulheres ainda ‘run the world’, e o dizem, e aparecem, e representam, e compartilham, e fortalecem.

os santos, são santas profanas. os profetas são profetizas. os deuses, são deusas. cada uma destas e um mar de outras, são nossxs orixás, nossxs santas, nossoxs deusas, nossxs profetas. todo tipo de representação que se levante como voz, que se una às nossas, tem que vir de um lugar nosso. mulher.

um certo alento é, não corrermos hoje o risco de nos deixar liderar por entidades que são diferentes de nós. que por nos colocarem seus óculos, nos fizeram já olhar nossa realidade por seus próprios vieses de privilégios. líderes brancos quando somos negras, líderes homens quando somos mulheres, líderes heteronormativos quando somos liberdade, lideres trabalho quando somos ócio, líderes fábrica quando somos natureza, líderes pau quando somos buceta. ninguém mais nos engana, quem faz nossos líderes, nossxs representantes, somos nós, elxs amplificam o que diz nossa voz: só podem vir de nós, para nós. no final de um ano, que olha para o horizonte de outro ano que parece tão obscurecido sobre nossas conquistas e esperanças, um apontamento seguro de que hoje sabemos: o falo, que já teve seu tempo de glória, é só piru. e se é da buceta que vem a força deste planeta, dela também virá a revolução.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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